sexta-feira, julho 27, 2007

Movimento

Nessa época de maravilhas, posso dizer tranqüilamente que uma delas é passar a tarde em casa. Mente já distorcida. A única dúvida é entre Jefferson Airplane e Lynard Skynard. A única preocupação é com a lasanha que está no forno. Sinto-me um verdadeiro privilegiado.
Faço parte da menor minoria: os que sabem o quanto isso tudo que está aí fora é uma palhaçada.
Nossa organização subversiva semi-clandestina está em plena atividade:

1. No momento estamos muito preocupados com o fato de que as bandas de hoje em dia não fazem mais filmes. The Song Remains The Same, The Wall, Woodstock, Tommy, A Hard Days Night, Rock'n'Roll Circus. O Rock'n'Roll só atingiu a sua magnitude por causa do cinema. O filme Sementes da Violência (Blackboard Jungle) foi o veículo que difundiu (We're Gonna) Rock Around the Clock, de Bill Haley & The Comets, em todo o planeta, para desespero dos donos das salas. Os filmes do Elvis. Jim Morisson era metido a cineasta. Tudo foi reduzido a clipe e agora ao nada.

2. O movimento pró cannabis plantada nos espaços públicos cresce vertiginosamente. Já podemos observar mudas bem desenvolvidas em vários pontos da cidade. A esperança é de que no verão já desfrutemos de deliciosos camarões.

3. Por fim, estamos reunido assinaturas para que seja instituída a lei que proíbe todo ser vivo de fazer aquilo que não quer. Pelo menos até que a coisa se ajeite. O mundo precisa papar um pouco, não para refletir; para não fazer nada mesmo.

Em meio a tantas atividades ainda encontramos um tempo para relaxar e beber uma cervejinha no bar.

quinta-feira, julho 26, 2007

Ditadura


O Brasil não é, nem nunca foi, um país democrático. Quem acredita nisso é cego, imbecil, ou mal-intencionado. A política é apenas a cortina de um teatro muito mais complexo. As aventuras dos governantes satisfazem os desejos da massa, dos ignorantes e da imprensa, enquanto as rédeas do país são domadas nos bastidores do palco.
Na verdade nem tão bastidores assim. O controle político não tem ideologia, só conhece o poder. E por poder entenda-se dinheiro. Portanto, para saber quem manda no Brasil basta olhar as doações para campanhas eleitorais. No site
pode-se ver tudo o que foi doado para a campanha de qualquer candidato. Fui olhar a do presidente Lula, afinal para quem quer governar é ali que o investimento deve ser maior.
Aqui apresento a relação de algumas das empresas que fazem esse país ser o que é:

- Banco Itaú (3,5 milhões para campanha);
- Unibanco (1,3 milhão);
- Banco ABN (1,5 milhão);
- Banco Alvorada (2,5 milhões);
- Gerdau (3,1 milhões);
- FSTP S.A. (responsável pela construção da plataforma P-52 - 2 milhões);
- Embraer (1,3 milhão);
- Construtora OAS (1,7 milhão);
- CSN (2 milhões);
- Ambev (1,5 milhão)
- JBS (exportadora de carnes - 2,5 milhões);
- Cutrale (exportadora de suco de laranja - 4 milhões);
- Votorantim (1 milhão).

Chega? Bem, essas são as empresas. Como doadores particulares aparecem encabeçando a lista Alexandre Grendene, Pedro Grendene e Eike Batista, com depósitos de 1 milhão cada.
Constatamos, assim, que toda a burocracia, legislatura e orçamento da nação são destinados a favorecer esses grupos acima listados. Duvida? Então leia o diário oficial e veja se as leis e projetos aprovados não dizem respeito direta ou indiretamente a algum deles. O Brasil vive na ditadura e o povo segue trabalhando para sustentar os privilégios dessa meia dúzia, muito mais preocupado com a novela, as amantes dos senadores e o Campeonato Brasileiro. É a triste realidade brasileira.

quarta-feira, julho 25, 2007

ACM

Eu não acreditei na morte de ACM. Achava que o cara era eterno, imortal. Não por ter feito um pacto com o diabo, mas por ser o próprio, ou representante direto dele. E a nossa imprensa abre espaço para um bando de imbecis aparecerem incensando o morto, como se ele tivesse sido importantíssimo para a história do Brasil. Por favor, esse já vai tarde!!!
Entre todas as mentiras, a melhor e mais engraçada foi a mentira oficial, que reproduzo abaixo:

NOTA OFICIAL DO DEMOCRATAS SOBRE ACM
Brasília, 20 de julho de 2007

Sob a emoção e o pesar pela morte do senador Antonio Carlos Magalhães, os Democratas vêm a público assumir o compromisso de lutar pelos mais necessitados com a mesma bravura e a mesma lealdade do político baiano. Sem escolher ou temer adversário algum, Antonio Carlos Magalhães esteve ao lado dos que mais precisam da força dos seus líderes. Ele era um guerreiro heróico, um estrategista da política que sabia superar sua condição humana para transformar o futuro do seu país e a vida das pessoas, principalmente a vida do povo baiano. A Bahia era sua razão de viver.
Temido pelos fortes e adorado pelos fracos, porque jamais teve medo de fazer o que julgava certo e verdadeiro, Antonio Carlos Magalhães teve papel essencial na transição democrática e no fim do regime militar (sic). Ele tinha a coragem de se expor, quando todos se omitiam. Esta é a maior e a mais respeitável característica de um líder. Este é um dos grandes legados de Antonio Carlos Magalhães ao seu país, ao seu Partido e aos seus descendentes.
Agradeço ao senador Antonio Carlos Magalhães pelo tratamento paternal que me dispensou nos últimos dez anos. Tenho orgulho e sinto saudades da nossa convivência. Ao deputado federal Antonio Carlos Magalhães Neto, meu amigo e grande líder baiano, assim como a todos os membros da família, manifesto, em meu nome e no nome do nosso Partido, as mais sentidas condolências neste momento de dor e sofrimento pela perda irreparável.

RODRIGO MAIA
Presidente dos Democratas

Que cara de pau!!! Imagino que o tal Rodrigo Maia sequer ficou vermelho ao escrever esse texto. Não é à toa que o Brasil é a zona que vemos.
Continuamos nossa campanha de NÃO AO TRABALHO. Chega de escravidão, não vamos mais sustentar os parasitas!

terça-feira, julho 24, 2007

O objetivo de Kurt

Alexandre ‘Slide’ é um grande guitarrista. Não que seja um virtuose ou “piruliteiro”; ele conseguiu a façanha de desenvolver um estilo próprio de tocar. A maneira como muda a afinação é fantástica.
Pois sábado encontrei esse grande guitarrista no Revival Rock Bar, em Caxias. Depois de alguma conversa notei que ele estava um pouco nervoso. “É que não posso mais beber. Meu fígado já era”. Com essa afirmação entramos no papo da idade. Minha namorada já tinha notado que o bar estava “meio estranho”. Claro, nós três, sentados num canto escuro do balcão, éramos os mais velhos, bem mais velhos que a maioria da gurizada. Lá pelas tantas o ‘Slide’ foi ao banheiro e voltou indignado. “Uma guria me empurrou e disse ‘sai pra lá tio’. Eu vou embora”. E saiu. Até porque ele tinha que tocar numa churrascaria domingo de meio dia, e ficar no boteco sem beber nada é muito chato.
Com essa despedida fui assistir ao show. A banda faria um tributo aos Cascavelletes. Gostei da idéia de homenagear os nossos rockers. Com certeza a banda arrumou a famosa demo tape, já que tocaram músicas muito loucas como aquela “eu tenho uma barata, debaixo da minha cama, eu sei que ela me ama, eu sei que ela me ama....”. Eu já estava até dançando no meio da gurizada quando o vocalista se manifesta: “é isso aí pessoal, boa noite”. Como assim boa noite? E Sob Um Céu de Blues? Cascavelletes sem Sob um Céu de Blues é o mesmo que Led Zeppelin sem Stairway to Heaven.
Peço outra cerveja com o pensamento fixo de que estou mesmo ficando velho e rabugento, como deve ser todo velho. Enquanto molho a goela o DJ bota um Nirvana para tocar. “Báh, agora essa gurizada vem abaixo”, pensei. Ledo engano. Nenhuma manifestação. Comecei a reparar nos lábios e ninguém acompanhava a letra da música.
Kurt Cobain morreu por nada. Pouco mais de 13 anos da sua morte e já está esquecido. Se soubesse disso, talvez nunca tivesse dado aquele balaço na cabeça. Que paradoxo: o último Rock Star matou-se justamente porque não queria ser um Rock Star. Kurt Cobain queria ser um Alexandre ‘Slide’ e levar uma vida fudida, mas real. Queria fazer seu som em botecos escuros e ter alguns poucos fãs que realmente entendessem sua música. O que me leva a crer que, se existe um culpado pela morte do Kurt, fora ele mesmo, é a MTV. O Nirvana foi o símbolo da era do vídeo clipe, dos anos 90. A TV conseguiu transformar ser protesto em espetáculo até o ponto de ele sentir-se tão vazio que a única saída foi a morte.
Tomei meu último trago com um sentimento de simpatia pelo Kurt. Finalmente ele conseguiu seu objetivo: deixou de ser um Rock Star.

segunda-feira, julho 23, 2007

Filho da puta

Manhã fria de inverno. O sol é só um enfeite no céu. Camiseta, blusão, moletom, jaqueta, e mesmo assim os músculos estremecem com as rajadas de vento gelado.
Da outra esquina vem um casal de mendigos. Ela com uma garrafa de cachaça na mão, ele com uma sacola vazia. Devem carregar todos os seus trapos no corpo, que mesmo assim parece pornograficamente descoberto. Nada de meias sob os sapatos furados. Calças rasgadas que não passam da metade das canelas. É impossível identificar as roupas do tronco.
Na parada de ônibus estamos eu e outro jovem. O mendigo vem em nossa direção com a mão estendida: “uma moedinha?”. Não, não temos moedas. Vão-se os mendigos. O cara me olha e diz: “vagabundo, por que não vai trabalhar?”. Arregalo os olhos, incrédulo. “Assim a vida é fácil, sai pedindo dinheiro por aí, come, bebe e vive na boa. Como se a gente tivesse que trabalhar para sustentar esses vagabundos”.
Penso em responder alguma coisa, mas desisto. Não vele a pena.
Vivem na boa? Garanto que o playboy nem vai acampar para não sentir frio. Fica o dia todo num escritório climatizado, toma banho com estufa no banheiro, dorme com quantos cobertores quiser.
Não existe outra definição para esse rapaz: é um filho da puta!

quarta-feira, julho 18, 2007

Erva

Palavras de Robert Nesta Marley:

"Usamos cannabis, sabe?

Usamos erva. A erva é a cura da nação diante da quieta destruição da humanidade. A erva é a cura da nação.
Quanto mais se aceita a erva, mais se aceita Rastafari.
A erva é importante, mas a erva é mais importante para aqueles que não aceitam, porque é uma realidade. (...)
Você olha e diz: 'a erva, a erva é uma planta'. Quero dizer, ervas fazem bem em todos os sentidos. Por que essas pessoas que querem fazer tanto bem, a todo mundo, que se denominam governos, e isso e aquilo, por que elas dizem que você não deve usar a erva?
Daí você pára para pensar e não consegue achar.... A gente só ouve elas dizerem: 'não, você não deve usar, porque lhe transforma em um rebelde'.

Contra o quê?"

Plante cannabis nos parques, nos canteiros das ruas, nos pátios de casas, terrenos baldios. Vamos transformar a erva numa praga impossível de controlar.

É UMA PLANTA!

terça-feira, julho 17, 2007

Craques

O Brasil é um país de especialistas. Todo brasileiro é craque em alguma coisa, além de treinador de futebol nas horas vagas.
Vejam a nossa elite: 500 anos de aperfeiçoamento não foram de graça. “Milionários brasileiros têm meio PIB”. É um clube do qual são sócias 130 mil pessoas, ou 0,07% da população. São os maiores craques do mundo em dominação. Poucos mostram a cara, mas são eles que dão as cartas. A última edição de Carta Capital ressalta a omissão do Governo quando o assunto são os “interesses da minoria, dos tradicionais donos do poder nativo e dos eternos colonizadores estrangeiros”. A bola da vez é a classificação dos programas de TV e o plantio de milho transgênico. O pessoal dos carros importados vive num paraíso climatizado, tecnológico e asséptico.
E o povão? Os brasileiros de verdade são craques mundiais em sobrevivência. Quem ergue os braços e dá graças a Deus por ter um emprego ganha R$ 380. Desses, R$ 193,90 vão para a cesta básica, ou como prefere chamar o Dieese, “Ração Essencial”. Digamos que ele tenha cinco filhos, porque sua mulher nunca sequer sonhou com anticoncepcionais, a ração acaba entre o dia 15 e 20 do mês. Roupas, cadernos, cervejinha, utensílios domésticos, passeio no fim de semana, futebol, tudo é sonho para esse brasileiro. 12,4 milhões de pessoas moram em favelas, que crescem a cada dia.
O grande paradoxo: eles têm medo de nós. Os ricos estão cada vez mais longe do seu próprio país. Vivem em cidadelas cercadas por exércitos particulares. Têm medo de andar na rua, suas próprias ruas.
O paradoxo do paradoxo: nada vai acontecer. O cenário poderia ser o ideal para qualquer tipo de revolução, em qualquer lugar do mundo. Menos no Brasil. O povo Brasileiro só quer viver em paz, tranqüilo e com liberdade. Não queremos poder e luxo.
Tenho duas sugestões para resolver essa situação. Primeiro, para a elite que adora reclamar de seus privilégios: vão morar na Europa. Tem aquele ar retrô-chique e não fica tão descarada sua admiração pelos nossos irmãos do Norte.
Agora para quem fica: vamos legalizar as drogas. Assim poderemos viver do consumo de cannabis e da exportação de jogadores de futebol.

segunda-feira, julho 16, 2007

Vaia

Não gosto de escrever sobre notícias do dia-a-dia. O que aí está todos podem ver, e cada um que tire suas próprias conclusões. A imbecilidade é livre.
No entanto, a repercussão de um fato acontecido no último fim de semana merece um comentário. Nosso presidente foi vaiado no Maracanã, o estádio que “vaia até minuto de silêncio”, como diria Nelson Rodrigues. Fosse um jogo de futebol, seria perfeitamente compreensível, afinal o povão, com gosta de dizer o pessoal dos carros importados, não tem educação e respeito.
Sexta não tinha nada de futebol. Era a abertura do Pan, e o povão estava muito longe dali, tentando sobreviver às investidas do “Caveirão”. Quem, por acaso, pode pagar R$150 para ver uma abertura de jogos? Imagino que o estacionamento estava recheado de Mercedes, BMW, Honda.....
O que quero dizer é que o presidente deveria estar feliz com as vaias. Foi a manifestação de quem é contra dar dinheiro para os miseráveis comerem, de quem fica nervoso com duas horas de atraso na sua viagem para a Europa. Foi a revolta de quem não quer ver os negros na Universidade, dos empresários que diminuíram seus lucros de 10 para 9 milhões.
Ou seja, foi a vaia mais reacionária que o “Maraca” já viu.

Festa furada

Seis mesas de sinuca, cerveja gelada e uma jukebox com discos de Rock. Com o cérebro já completamente fora do seu estado natural, nada como chegar em casa. Mesmo nunca tendo pisado lá. “Uma ceva, um Marlboro, duas fichas de sinuca e uma de música”. Eu podia tranqüilamente colocar uma cadeira ao lado das caixas de som e ficar ali sentado a noite toda me embriagando.
Mas como era sábado, o pessoal queria uma “festa”. Pois bem, o Garagem Hermética tinha em cartaz um tributo ao Black Sabbath e mais duas bandas, ou seja, uma opção natural. Acontece que às vezes meus amigos tentam “descobrir” novos lugares e fomos iludidos com a seguinte propaganda: dia 14 de julho – HYPE!? ALL STAR no Cabaret do Beco, a partir das 23h. Aproveitando o maior ícone da atitude rock de todos os tempos, a GIG ROCK realiza uma festa na Av. Independência com os melhores djs rockers da Capital.
Depois de uma certa resistência em deixar a jukebox, fomos para o tal Cabaret. Entramos e de cara percebemos a fria: era uma rave! No som aquele bate-estaca eletrônico e uns tipos estranhos, para dizer o mínimo, pulando enlouquecidos num porão.
Rapidamente bolamos um plano para sairmos sem pagar, não funcionou. Pensei em brigar com o dj (dj rocker, que piada!), mas não ia adiantar porque ele só tinha aqueles CDs. Vencidos, resolvemos acender um baseado para relaxar. Lá pela meiota o segurança chega e manda a gente apagar. Umas duzentas pessoas tomando balas, picos, cafungando até talco de criancinha e o cara manda a gente apagar o baseado! Inacreditável!
Voltamos para o boteco, bêbados e com raiva. Peguei uma ficha e coloquei AC/DC para reanimar o cérebro. As crianças não sabem mais o que é Rock. Estou pensando em entrar na Justiça contra os organizadores dessa palhaçada por propaganda enganosa. E não coloco mais meus pés nesse tal de Cabaret nem amarrado e debaixo de porrada.

sexta-feira, julho 13, 2007

Foda-se Paul McCartney

A vida é mesmo engraçada. Ontem escrevo um texto dizendo que Paul McCartney isso, Paul McCartney aquilo, e hoje me deparo com a seguinte notícia no jornal O Estado de São Paulo: “Vegetarianismo é solução contra aquecimento, diz McCartney”. Palavras de Paul: “cada um pode fazer algo para evitar o chamado efeito estufa, modificando seus hábitos alimentares e substituindo a carne pelos vegetais. A criação de vacas, bois e porcos é um dos principais destruidores do planeta. Quando vemos que a Floresta Amazônica está sendo desmatada pelo chamado ´gado de hambúrgueres´, isto fica mais que óbvio. E dizem que fazem isso em beneficio de nós, quando na verdade ocorre o oposto. Ninguém considera que deve mudar, mas é preciso tomar uma posição com relação a isso”.

Muito bem, seu McCartney, que tal o senhor me dizer de onde vem a soja do seu bife vegetariano? E o trigo do seu pãozinho integral?
Esse discurso serve perfeitamente para o pessoal dos carros importados. “Ufa, agora que sou vegetariano posso pegar meu carro para ir até a esquina sem culpa”. É o mesmo pessoal que considera um grande favor para a sociedade colocar a merda do seu poodle em um saco de petróleo. Que paga um salário de fome para um zelador lavar sua calçada com mangueira. Que fica “indignado” com a derrubada de uma árvore, mas mora num condomínio de luxo que destruiu vários hectares de mata nativa. Que acha um “absurdo” a poluição dos rios, mas despeja tubos de detergente nas pias e privadas da sua casa.
Por favor, não sejamos hipócritas.
Viva o churrasco! Viva a cerveja!

Ah, só para deixar claro: Ringo Star é o mais importante ser humano vivo.

quinta-feira, julho 12, 2007

Paul McCartney


Paul McCartney é o mais importante ser humano vivo. Para o mundo do Rock, indiscutivelmente. É claro que ainda temos Mick Jagger e Keith Richards em mega turnês pelo mundo e Pete Thousand com uma postura cada vez mais rocker. Jimmi Page e Robert Plant também estão vivos, assim como Ozzy Osbourne. Mas a defesa de Paul tem um argumento que supera qualquer outro: ele foi um Beatle.
Depois dessa primeira reflexão, percebo novemente a triste evidência de que o rock morreu. Quem, que apareceu no Rock de 1990 para cá, poderíamos colocar nessa lista? Kurt Cobain, talvez, mas já morreu. Não me venham com os irmãos Oasis. Nada, um deserto de Rock Stars, o que acaba por ser compreendido como a morte do Rock'n'Roll.
Voltemos para Paul McCartney. Vamos analisar fora do mundo da música se alguém é mais importante que ele. Qualquer ex-presidente de qualquer país já está de antemão descartado justamente pelo fato de ter sido presidente de algum país. O que nos obriga a excluir também todo e qualquer político, pelo simples fato de ser político. Ser do exército também exclui da comparação. Os economistas só trabalham para foder o povo. Ciência, hoje em dia, resume-se a uma corrida tenológica sem sentido. Filósofos são grandes técnicos ou grandes chatos.
Só sobra mesmo Paul McCartney. E quando ele morrer, quem ocupa o posto é o Ringo.

Sábado de manhã

Sábado de manhã, hora da classe média ir às compras. O Centro da cidade mais leve pelas preocupações deixadas na sexta. Até as pombas carnívoras e fumantes parecem mais tranqüilas. As velhinhas olham as antiguidades. É o momento de se fazer o que gosta, de voltar à infância, fitas cassete, panelas de pressão, livros rasgados, moedas e candelabros. Os prédios descascando de cartazes e pretos de fuligem. A feira vem de longe, mas sempre está ali. Olhares desconfiados para os carros. Realmente, é uma bela sujeira. Cheiro de mijo e merda pisoteada por sandálias de grife. Restaurantes mais caros. E sobre tudo, um sol que não agride nem mesmo as camisas pretas. Ainda temos inverno, um pouco de vida e motivação.
São esses os pensamentos desconexos que formam a sensação de aconchego, de pertencimento ao lugar. A rua como extensão da casa, a rua individual e coletiva, nossa rua. Um gole de água para ajudar o cérebro de ressaca e animar o pulmão para o primeiro cigarro. As mulheres, todas lindas, disparam felpas de suas saias. Ele chega na esquina e pára à procura de um porto seguro. Uma das pequenas ruas chama numa voz inconsciente. Casas de carros, depósitos do bem mais valioso e paradoxal da nossa civilização. No fim da primeira quadra, o clube.
A grande sala está praticamente vazia. A menina da porta levanta um só olho do jornal. Ele entra, joga a mochila numa cadeira, senta noutra e suspira um cansaço que não existe. Pega um dos livros atirados sobre a mesa.

Guerras colossais em sua estupidez. Aqueles idiotas deviam se achar tão importantes quanto nós e tudo o que conseguiram foi virar chacota em gravuras de livros escolares. O mundo é essa palhaçada que nós vemos, mas tudo segue inalterado. O humano será sempre humano.

Um clarinete toca Yesterday em caixas de som ocultas por prateleiras.

A música mais gravada da história. Bela música. “Renan Calheiros não deixa a presidência do Senado”. “Onde estão os caras pintadas?”. Estão lutando por um restaurante na Faculdade de Educação Física. Página 3.

Entra mais uma pessoa. A menina desvia o mesmo olho. O senhor de bigode e boné levanta dois dedos da mão direita e segue reto. Tipos estranhos e um vento gelado. A rua nunca tem sol. Norman Mayler, A Luta. O maior combate entre dois homens do século XX. Levanta para mais um cigarro. Um homem-mula sobe a rua com seu lixo. Senhoras encasacadas em peles correm para a porta do restaurante. Todos são muito conhecidos. As palavras traem a sensação, desvirtuam a análise.
O cérebro continua vazio. Só pensamentos instantâneos. A menina segue hipnotizada pelas letras. Vozes se aproximam. Acenos de cabeça e apertos de mão. “Já vou indo”. O mesmo olho. A mesma vida. Sábado de manhã.

terça-feira, julho 10, 2007

Como água

Uma vila qualquer de Porto Alegre. Sexta-feira, por volta das 16h da tarde. A pausa no inverno deixa o povo confuso. Há poucas horas a hi society mostrava seus corpos em bares de cerveja cara. Na viela, um boteco clandestino com sinuca e cachaça. Uma senhora, uma moça e um guri estão sentados em frente à porta, tomando tranqüilamente seu chimarrão.

- Parece que a Cootravipa vai começar a assinar carteira.
- É, muita gente entrou com processo. Eles acabam perdendo mais dinheiro não assinando.
- Se bem que hoje em dia pro trabalhador não vale a pena emprego de assinar carteira. O cara ganha mais trabalhando por conta. Não adianta nada pagar a vida toda o INSS e no fim o dinheiro é o mesmo que se aposentar por idade.
- Eu tenho um tio que trabalha vendendo rapadura em Torres que ganha bem mais que um salário. Ainda mais com a vantagem de trabalhar a hora que quiser, acordar a hora que quiser.
- E não dá dinheiro pra sustentar esses políticos. Só o salário deles é oito mil e pouco. Eles não fazem a menor idéia do que é um salário para nós.
- É por isso que nas eleições eles saem distribuindo dinheiro. Nenhum quer perder essa boquinha. Eu vou continuar cuidando do bar aqui. Abro a hora que eu quero, não me incomodo com nada e ganho meu dinheirinho.
- E eu vou continuar controlando a freguesia.

A velha faz um sinal de aprovação com a cabeça. Todos riem. E fica cristalino como água que o sistema ignora totalmente a sociedade brasileira. As instituições oficiais, a mídia, ou qualquer coisa que se diga representante da vontade do povo; nenhum deles sabe o que se passa com 80% da população desse país. As pessoas só querem levar uma vida tranqüila fazendo aquilo que gostam. Nada mais. Mas existe uma meia dúzia de filhos da puta que têm um chilique se o seu lucro baixa de dez milhões por mês e decidem demitir ou explorar ainda mais seus escravos. A grande massa, sem alternativas, vai se arrumando do jeito que dá. E o que todos queriam era só uma vida digna e com liberdade.

Desculpas

Desculpem-me os leitores deste blog pela falta de postagens diárias. Tenho tido problemas com a tecnologia avançadíssima que instalaram lá em casa. Prometo que compenso logo a falta de textos.
Um abraço.

sexta-feira, julho 06, 2007

Heróis

É obvio que me inspiro em Lester Bangs. Um dia desses um cara chegou e me jogou na cara essa verdade, como se fosse me ofender. Olhei para ele e disse exatamente isso: "é obvio que me inspiro em Lester Bangs".
Todos temos os nossos heróis. No último texto falei muito de Jim Morrison. Ele é um herói. Comprei o livro, não exatamente o das poesias do Jim, mas uma biografia, escrita por Jerry Hopkins e Daniel Sugerman, cujo nome é Daqui Ninguém Sai Vivo (No One Here Get's Out Alive). Permito-me reproduzir aqui o primeiro parágrafo do prefácio de Sugerman:
"Jim Morrison estava no bom caminho para se tornar um herói mítico ainda em vida - ele era, poucos o contestarão, uma lenda viva. A sua morte, envolta em mistério e numa especulação contínua, completou a consagração, assegurando-lhe um lugar no panteão dos artistas dilacerados e talentosos, que sentiram demasiadamente a vida para conseguirem vivê-la: Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Lenny Bruce, Dylan Thomas, James Dean, Jimi Hendrix e outros".
Aí está, um herói. E não há nada de errado em termos nossos heróis. O que seria da minha infância se não fossem os Ramones? Mas meu primeiro herói foi o Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii. O primeiro disco que comprei na vida foi o Alívio Imediato. Duas músicas de estúdio, Nau à Deriva e Alívio Imediato. O resto é ao vivo, gravado no Canecão em julho de 1989. Para uma criança com 9 anos de idade, as coisas que o Gessinger fala geram uma interpretação do futuro. Frases como "a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante" soam quase proféticas. É uma daquelas frases que não dizem nada, mas passamos boa parte da vida tentando compreender seu sentido e sentimento. Hoje pode parecer banal. No entanto duvido de alguém com mais de 25 anos que não tenha cantado sozinho o refrão de Era Um Garoto... enquanto andava pela rua.
A não ser que sejamos tão loucos quanto um Nietzche, temos heróis que influenciam nossa vida. Não tenho vergonha nenhuma de falar e defender meus heróis. Não quero ser nada além de mim, mas só sou que sou por conta de tudo o que li, ouvi e vivi. Se acham que sou influenciado por Lester Bangs, melhor. É claro que sou.

terça-feira, julho 03, 2007

Tecnologia


Com um exemplo, pretendo dizer tudo o que penso sobre a tecnologia. Um dia combinamos de tocar com os amigos da Road House Band, Daniel (vocalista) e Iguana (baterista). O Nano, que é o Daniel, e fã incondicional de Jim Morrison, trouxe um CD com toda a discografia do Doors, incluindo raridades e discos ao vivo.
Chega a ser assustador. O trabalho de uma vida. Juntar toda uma discografia, ou pelo menos o suficiente para ter noção de que nunca estaria completa, era coisa de aficcionado. Eu, por exemplo, passei anos colecionando discos do Doors. Nunca tive o "The Soft Parade". Durante a juventude me considerava o fã número um dos Ramones, mas nunca tive o "Half Way To Sanity". Só uma fita que um amigo gravou. Isso para dizer que hoje o disco perdeu o valor que tinha naquela época. Um sacrifício. Horas e horas em lojas. O cara era amigo do vendedor de discos assim como do livreiro. E o vendedor de discos era o cara que mais sabia de música, assim como o livreiro sabe de livros. Na verdade essa relação ainda existe, mas continuam sendo os mesmos aficcionados do tempo em que era generalizada a relação das pessoas com os discos e as lojas de disco. É só passar na frente de uma. Vazias. Todas as lojas de disco estão vazias.
Mas isso é só uma constatação. Eu considero uma grande vantagem, a tecnologia. Há alguns dias chegou aqui em casa um disco do Lynard Skynard. Sem contar da que já pode ser chamada coleção de discos de Blues. Os sete primeiros discos do Elvis. Toda a discografia da Janis, do Raul, do Casa das Máquinas. Jefferson Airplane, ZZ Top, Legião Urbana, Kiss, David Bowie. Qualquer coisa. Uma revolução, overdose de Rock'n'Roll. Acho até que precisamos criar mais cursos de Rock por aí. Já tem aquela faculdade da Unisinos. Tem alguns almoços temáticos no Studio Clio. Mas os cursos têm que exigir uma carga horária de aulas práticas maior do que teoricas. Uma pessoa nunca vai ser Rocker só conhecendo todas as bandas de Rock. O candidato a Rocker tem que enfrentar a noite. Economia não explica a arte da sobrevivência depois do dia 15, quando o cara provavelmente já gastou todo seu dinheiro no bar. A antropologia ainda não sabe explicar a maneira de conversar com o bandido para não ser assaltado. Só com muito treino o candidato a Rocker consegue beber parelho a noite toda e não fazer papelão nas festas. Se contarmos que o Keith Richards ainda faz os dele, talvez essa seja uma coisa impossível de aprender. Sem essa vivência não vai adiantar de nada o acesso a todos os discos de Rock.
Na verdade essa reflexão toda veio depois de perceber que Jim Morrison não é cantor, e sim um declamador de poesias que se empolgava e saía gritando por aí. "An American Prayer" é um excelente disco. Outro que eu não tinha do Doors; só ouvia na casa de amigos. Agora é obrigatória a aquisição do livro do Jim que tem pelos sebos da cidade. E depois dizem que o cara não era nada, que não fazia literatura. Legítimo preconceito. Jim Morrison é a marca de uma geração, sem exageros. É um Jack Kerouak, um Hemingway. Não conheço os poetas norte americanos. Por que Cazuza é poeta e Jim Morrison não? Eu sei que não tem comparação, mas penso como um brasileiro.
Temos que entender que Jim Morrison é um poeta para aproveitar os discos que a tecnologia nos proporciona.

segunda-feira, julho 02, 2007

Entrevista Psicótica 2


Tardes livres resumem-se em fumaceira na sala. Indiferente ao cotidiano de carros que nunca param, ônibus que transportam a mercadoria humana para a periferia e passos que nunca vão desgastar as pedras da calçada. O sol impotente de inverno abandona as roupas loucas para secar. Som de serra, martelos e, como que resistindo a tudo, uma gaita de boca. Blues. Meio melancólico fecho os olhos enterrado no sofá até que ouço uma voz inconfundível: "the blues heals". É John Lee Hooker que se apresenta para mais uma entrevista psicótica.

Devaneios: Qual é a sensação de ter morrido no auge, reconhecido e celebrado por diversos nomes da música?
John Lee Hooker: Meu amigo, tu não fazes a menor idéia do que foi meu auge. Tenta imaginar: 1945, um boteco de jogatina clandestino, uma garrafa de Bourbon na mesa, os melhores músicos de Blues e uma senhorita louca para me conhecer. Ainda acha que o auge foi aquele velho decrépito do fim da vida?
Devaneios: Desculpa, é que hoje em dia temos a mania de pensar em dinheiro, fama...
John Lee Hooker: Todos nós sempre pensamos em dinheiro. Mas ele não é, e nem chega perto de ser, a coisa mais importante da vida. Eu, por exemplo, só segui meu destino. Quando saí do Delta, fui trabalhar como zelador nas fábricas de automóveis em Detroit, mas nunca abandonei minha raíz. Tempos difíceis fazem Blues, dor e sofrimento fazem Blues. E eu segui este destino, com minha guitarra vagando pela madrugada a cantar as coisas que minha geração deixou para trás. No fim fim deu tudo certo, não deu?
Devaneios: Fale um pouco da música. De onde ela vem?
John Lee Hooker: A música está dentro de cada um de nós. Eu nasci no Mississipi, o que deve ter uma certa influência na minha musicalidade, mas acredito que o Blues sempre esteve dentro de mim. Ele veio do meu pai, do meu avô, da alma que acompanhou meu corpo. Cantar a dor foi a única coisa que soube fazer a vida toda. Quando ficava só, naqueles quartos de pensão barata, aquilo era Blues. Quando curtia as festas regadas a uísque barato, aquilo era Blues. Quando via meu povo na rua, desempregado e com fome, aquilo era Blues.
Devaneios: Você teve uma relação intensa com músicos brancos e bem mais jovens, como Van Morrison, por exemplo.
John Lee Hooker: Quando o Rock surgiu, o Blues andava meio desmoralizado. Alguns caras achavam que era uma música escapista, que se conformava com a situação de explorado do negro. Bobagem! O maior paradoxo é que foram justamente os brancos que entenderam o verdadeiro sentido do Blues e o usaram para expressar aquele rebeldia reprimida que tinham. Foi a ressurreição. Alguns ficaram contra mim e outros colegas porque tocávamos para um público de brancos. Mas bem, você sabe, música não tem cor.
Devaneios: A música é comprida, mas já está chegando no final. Para terminar, nos diga como andam as coisas por aí.
John Lee Hooker: Tudo tranqüilo. Arrumei um cantinho escuro aqui no Red Light e minha guitarra fica sempre ligada. Sabe como é, vira e mexe alguém pede uma participação especial.....

Foi-se. Estou até agora tocando o riff de "Boom, Boom, Boom" com a certeza de que i will never get out of this blues alive.

sexta-feira, junho 29, 2007

Uma heroína

M. era uma menina comum. Gostava de sair à noite, curtir um rock e confraternizar com os amigos. Durante a faculdade formou uma boa turma e conheceu seu namorado. Sempre apreciou as coisas simples da vida: uma volta na Redenção em dias de sol, Gasômetro no fim da tarde, sorvete no Jóia, cervejadinha no João, no Marinho, no Rossi, no Adriano, no Bell's, ficar sem fazer nada, andar à deriva pelo Centro de Porto Alegre, praia, qualquer uma, até Capão no verão. Mora com sua mãe num apartamento simples, mas aconchegante. Seu projeto de vida? Viver.
H.G. é um dos mais respeitados empresários do Rio Grande do Sul. Para eles. Um legítimo representante da turma dos carros importados. Mais que isso, um dos líderes. Seu faturamento gira em torno dos milhões de reais. Se no fim do mês a conta apresenta uma queda nos lucros, não hesita em demitir o pessoal do salário mínimo. É conhecido pelo stress que provoca nos funcionários, pressão, desconforto, medo. Separou-se de sua mulher e é obrigado a conviver com a indiferença da filha. Seu projeto de vida? Acumular mais e mais dinheiro.
M. se formou na faculdade. Depois de alguns meses circulando quadrados nos classificados, conseguiu um emprego. Salário bom para quem está começando, rancho no fim do mês, vale transporte, ou seja, mais um número nas estatísticas de emprego formal do governo.
Mas não demorou muito para ela perceber como são tratados os escravos modernos. Ela, uma das melhores funcionárias da sua área no Brasil, passou a viver sob uma tortura psicológica constante. Na sua sala todos suavam sangue para agradar e sustentar as loucuras do chefe. Sempre o risco de uma demissão sumária, ou de tomar um esporro sem ter feito nada, ou mesmo de agressão física, como chegou a acontecer com M.
Eis que um belo dia ela decidiu: "não quero mais".
Saiu aflita de casa, pois falar com o tal de H.G. é sempre um teste de nervos. Seu chefe direto não teve capacidade de resolver nada, então foi obrigada a marcar essa hora com o chefe de todos. Entrou na sala com o semblante decidido, ele com cara de poucos amigos.
-Eu gostaria que o senhor me demitisse.
-Mas por que sair? Não estás satisfeita com teu trabalho?
-Não, eu quero fazer outras coisas da minha vida.
-Eu dobro o teu salário.
-Não, eu quero mesmo é sair daqui.
-Eu triplico o teu salário.
-Não, o senhor não está entendendo, eu não quero mais trabalhar nessa empresa.
-Eu triplico o teu salário e pago uma pós-graduação.
-O senhor realmente não está entendendo: EU NÃO QUERO MAIS TRABALHAR AQUI!!!
Nesse mesmo dia M. assinou os papéis de sua demissão. Ela voltou a ser feliz. De noite saiu para confraternizar e assistir um show de rock com seus amigos.
Mas M. não é mais uma menina comum. Ela conseguiu provar para um grande filho da puta que não são todas as pessoas que se vendem por dinheiro. Que ainda existe gente que valoriza a vida e toda a complexidade de suas coisas simples: uma volta na Redenção em dias de sol, Gasômetro no fim da tarde, sorvete no Jóia, cervejadinha no João, no Marinho, no Rossi, no Adriano, no Bell's, ficar sem fazer nada, andar à deriva pelo Centro de Porto Alegre, praia, qualquer uma, até Capão no verão.....

terça-feira, junho 26, 2007

Implicância (ou como o marxismo sustenta a elite)

Confesso que tenho algumas manias das quais não me orgulho muito. Em determinadas situações saio da minha pacata existência para virar um verdadeiro chato. Já criei algumas boas inimizades, mas não adianta, não consigo me controlar. Implico, por exemplo, com quem gosta de Tom Zé. Se eu sou chato, ele é o rei dos chatos. Quem consegue ouvir um disco seu do início ao fim merece um prêmio de resistência. Pior é que essas mesmas pessoas dizem que Rock’n’Roll é só barulho. Um pouco de discernimento não faz mal a ninguém. Podem até concordar com a postura do cara, mas daí a dizer que ele faz música, e da boa, tem uma grande diferença. Outros que eu não suporto são os fãs dos Los Hermanos. Garanto que todos ligavam para a rádio pedindo Ana Júlia e agora ficam botando banca de intelectual. Se é para ouvir choradeira, que ouçam Legião Urbana. Pelo menos o Renatão tinha alguma coisa a dizer.
Mas o que me dá mais satisfação na implicância não é em relação à música. Eu gosto mesmo é de encher o saco dos comunistas. Se cursam a faculdade de Ciências Sociais então é um prato cheio. O leitor que ainda não reparou, comece a prestar atenção. Quando eles passam no vestibular são jovens felizes, de bem com a vida, tranqüilos na sua suave ignorância. Já no segundo semestre pode-se notar a transformação nos seus rostos. Acho que a palavra ideal é prepotência. Sim, por que leram uma meia dúzia de textos (marxistas) têm certeza absoluta que estão num nível superior a nós, simples mortais. Não sorriem mais. Só conversam entre si, já que não vale a pena desperdiçar sua preciosa saliva com um bando de ignorantes. Claro que não são todos assim. Digamos que só uns 90%.
Em algumas raras oportunidades consigo entrar numa dessas rodas de pregação. É óbvio que só nas que o pessoal ainda não me conhece. Como já disse, sou um chato de galocha, difícil de esquecer. Em algumas oportunidades conto até com a ajuda de alguns amigos (dos 10%) dispostos a dar boas risadas. Depois de um tempo ouvindo, minha primeira frase, invariavelmente é: “quer dizer que o pessoal aqui é todo da religião?”. Olhos arregalados e desconfiados na minha direção. “Que religião?”. “Comunista. Não é disso que vocês estão falando?”. Geralmente eles não têm reação após uma acusação tão forte. Aproveito a brecha para começar meu discurso, sempre o mesmo, com uma comparação entre a ideologia marxista e as religiões.
Dogmas. Assim como qualquer religião, o marxismo vive de dogmas. O velho Marx é Jesus, só que ao invés de paz e amor, ele prega a luta de classes. Afinal, é ou não um dogma acreditar na superioridade moral do proletariado? É uma questão de crença, de fé. Acreditar na revolução num país como o Brasil é outro. Ainda mais se tiver que partir deles. Um exército de bêbados de boteco, armados de garrafas e copos, alguns com sedas e baseados.
A essa altura alguns já estão me acusando de “fantoche do capitalismo”, “reformista otário”, “chupa-pau de americano”. Isso sem contar os “vai-te à merda” e “filho da puta”. Mas sigo firme. Certifico-me de que são todos contra a elite. “Claro”. “Então, o que faz uma elite ser melhor que outra?”. Sim, porque a ditadura do proletariado pressupõe o governo de uma elite operária. É a troca da opressão do mercado pela opressão da burocracia. E o que eles vão fazer com quem não concorda com seu governo? Matar? Extraditar? Prender?
Estou quase chegando no meu auge. Os poucos ouvintes que ainda restam estão só curiosos para ver até onde eu vou. É quando me perguntam: “então qual é a solução?”. “Raulseixismo”, eu respondo. “Como?”. Isso mesmo, Raulseixismo. Só seremos realmente livres no dia em que a única lei for “faça o que tu queres, há de ser tudo da lei”.
Como termina a noite?
“VAI TE FUDÊ, HIPPIE FILHO DA PUTA!!!”. E volto tranqüilo para casa.

segunda-feira, junho 25, 2007

Off ou soneca

Mais um dia. Estou enjoado de abrir os olhos e ver sempre os mesmos números vermelhos piscando. Preciso de outro despertador, daqui um tempo perco o respeito por esse. Soneca, dez minutos. Dez minutos de agonia, pensando que tenho que levantar; sou obrigado, tenho um emprego. Viro-me para o outro lado e abraço a mulher que ainda dorme, também de costas para mim. Nem sei por que, já sabia que meu braço ia ser jogado de volta. E que ouviria resmungos. Continuo minha soneca de olhos abertos, fixos no teto, aumentando minha angústia. Seis e trinta e cinco, mais cinco minutos. Não sei por que não quero levantar, já estou acordado e este lugar me incomoda. Acho que meu sonho era algo diferente. Não tiro a cabeça do travesseiro, não fecho os olhos, e estou cercado de um lado por uma nuca e de outro por caracteres vermelhos. Ambos me afrontam, me sufocam, ambos vivem comigo e não sei porque. Três minutos, faltam três minutos para começar mais um dia cheio. A não ser que eu resolva prolongar um pouco mais este limbo. São só duas alternativas mesmo, off ou soneca. Se eu ficar mais não posso tomar banho. O último foi ontem de manhã, cabelo sujo, axilas fedendo; azar, acho que dá para disfarçar, já fui assim antes. Vou ter que ir a pé, a não ser que eu escove os dentes enquanto mijo e não procure muito as roupas. Um minuto, ou menos, pode tocar a qualquer momento...
Deu, foi, soneca de novo. Tomara que ela não tenha acordado. Será que ainda me ama? Há pouco tempo me acordava com beijos e “eu te amo”. Um dia isso acabou, sem mais nem mesmo, simplesmente acabou. Nunca mais “eu te amo”, nunca mais beijinho, nunca mais. Algo aconteceu. Devo ter feito alguma coisa que nunca soube o que é. Ou o contrário, não fiz nada. Ou ela conheceu alguém. Seis e quarenta e sete, como passou rápido, o tempo é realmente relativo. Ela continua ali imóvel, só escuto a sua respiração de sono. Acho que ela não teria coragem de me trair, sua honestidade é verdadeira, mas tenho medo. Medo, medo de quê? Eu seria muito mais feliz com a notícia, acabaria meu tormento, o fim do soneca. Mais dez minutos e eu chego atrasado, pouco, às vezes vale a pena. O teto fica cada vez mais branco, os números já não brilham como antes. Minha vida é um amanhecer. De novo um minuto, ou menos, e a dúvida, off ou soneca? Pode tocar a qualquer momento...
Tocou.
- Não está na hora de tu ir trabalhar?
- Sim, sim, já vou.
Já vou, já vou..........

sexta-feira, junho 22, 2007

Vida Rocker

Não é nada fácil a vida de músico. Principalmente para nós, roqueiros de plantão. Até porque somos considerados sub-músicos. Alguma coisa tipo técnicos instrumentistas, bem abaixo do profissionalismo e dos eruditos de salões. De qualquer forma, o Rock não se presta a esses detalhes. Ir contra a ordem estabelecida, ao correto, é uma das suas funções.
O problema é que tudo isso influencia na hora do pagamento. O músico de verdade tem um contrato assinado, ou seja, não importa o que acontecer ele ganha aquele dinheiro pré-estabelecido. Além disso, ele só chega, com o palco montado, afina seu instrumento, toca e vai embora. Já o rocker tem que, primeiro, descolar um amigo que tenha carro para levar a aparelhagem até o boteco. Caso não consiga, paleta para que te quero. Depois tem que montar o palco, passar o som e acertar a iluminação (quando tem). Aí começa a agonia, pois o rocker recebe pela porta; se aparece pouca gente, nada de dinheiro. Mas o show sai de qualquer maneira. Tanto que o mais comum de acontecer é chegar lá pelas 5 horas da madrugada e o cara completamente embriagado receber apenas um aperto de mão do dono do bar porque gastou tudo o que ganharia em trago.
A questão é que faço isso tudo com o maior prazer do mundo. Horas e horas de ensaio, a função dos cartazes, marcar os shows, contatos com o cara da aparelhagem, tudo vale a pena. Subir no palco, sentar o braço na guitarra e ver o sorriso de satisfação no rosto do público, como diz a propaganda, não tem preço.
Enquanto tiver forças continuarei saindo pelas madrugadas, com uma garrafa de qualquer coisa forte, um balde de grude e um pincel para, como um cachorro, parar em todos os postes e colar os cartazes da próxima apresentação. Continuarei carregando a guitarra e o amplificador noite adentro. Tudo porque um dia, na tenra infância, ouvindo um disco dos Ramones a todo volume, me olhei no espelho e decidi:
MINHA VIDA É O ROCK’N’ROLL!!!

quinta-feira, junho 21, 2007

Tudo o que pensamos e não temos coragem de dizer

Outra cerveja. Talvez agora o garçom tenha deixado sua cara de bunda no banheiro. Idiota. Ele é apenas o garçom e olha a todos com um ar superior, sabe, cara de bunda mesmo. “Traz mais uma aí amigo”. Amigo o caralho, e vê se não me olha mais assim, bundão.
Isso é o que acaba com o mundo, a arrogância das pessoas. Tenho certeza que ele deve estar pensando a mesma coisa: “amigo o caralho”, só que por motivos diferentes. Olha lá aquele babaca metido a intelectual, tomando nota das coisas num bloquinho, ganhando dinheiro para falar o que pensa.
Certo, admito que sou um merda, mas também não precisa me olhar desse jeito. Só não é pior que olhar de brigadiano. Esses são os reis do rei na barriga. Mas não é à toa, olha o poder que o governo dá para um bando de ignorantes, chefiados por um bando de ignorantes e comandados pelo ignorante mor do Estado. Alguém por acaso já viu um brigadiano defendendo o bem público? Sim, vá lá, existem algumas almas boas, mas a maioria está aí para encher o saco. A abordagem mais comum deles para com os cidadãos é: “o que tu ta escondendo aí, mão na parede, vagabundo”. Pior ainda são aqueles que ficam escondendo o barrigão atrás da mesa da delegacia só esperando chegar alguém com uma ocorrência para fazer cara de deboche.
Bem, mas falar deles e falar de nada é a mesma coisa, já que não vai mudar nada mesmo. Pelo menos esqueci um pouco do garçom.
Não suporto aquele olhar de peixe morto, de quem sabe que é gostosa e quer te humilhar porque tu só é mais um cara que fica babando e nunca vai conseguir nada com ela. Na real acho que elas nem ficam com ninguém, só para que todos os homens do mundo sintam raiva delas por elas serem tão gostosas, saberem que são e não ficarem com ninguém. Eu até ficaria feliz se um amigo, um conhecido que seja, conseguisse algo com uma delas, mas não, é impossível. Está certo que minha classe social influencia um pouco nisso. Talvez se eu tivesse um amigo que andasse numa Mercedes, saísse nos fins de semana para velejar e morasse numa mansão da Zona Sul, eu até conheceria alguém que fica com essas gostosas. Putas. Bando de putas que dão o rabinho não pelo dinheiro diretamente, mas pelo o que o dinheiro pode comprar. Ou seja, putas.
Até que enfim, hein, pau no cú? Foi fabricar a cerveja? Garçom xarope.
Putz, lá vem ela. Não deu nem tempo de descansar. Agora vou ficar o resto da noite ouvindo só bobagens e coisas sem graça. Que merda!
- Oi benzinho!
- Oi amor!
- Como é que foi teu dia?
- Tudo ótimo.....

quarta-feira, junho 20, 2007

BLUES

Uma homenagem aos irmãos da banda Delta do Jacuí

BLUES
The blues heals
Blues
Flash and bone
Ancient mystics
Right notes


BLUES
Feeling and moaning
Blues
Soul to pain
Never the same
Always looking for

BLUES

terça-feira, junho 19, 2007

Polícia

Eu podia tranqüilamente sentir ódio da polícia. O que em determinadas situações é impossível de evitar. Mas de uma maneira geral o que sinto é pena. O policial comum é um cidadão semi-alfabetizado que sofre uma lavagem cerebral onde o ensinam a proteger e servir o patrimônio particular da alta burguesia. Essa lógica é reforçada pelas manchetes de jornais: “não é mais possível sair nas ruas”, “a criminalidade venceu a guerra contra os cidadãos de bem”. E a polícia se sente obrigada a prestar serviços a quem tem o que ser roubado. O resto pode ser tratado como lixo, afinal, não consome, não faz parte do mercado, não possui cidadania.
Vamos aos exemplos. No futebol que apanha é o pessoal da arquibancada. Tudo começa nas filas. Já está tudo extremamente tumultuado, crianças chorando esmagadas pela turba, quando o brigadiano resolve “botar ordem” na rapaziada. Como um cavaleiro medieval desembainha a espada e joga o cavalo sobre a multidão. Basta um sussurro de “filho da puta” para uma pancadaria generalizada. Dentro do estádio não é diferente. Com 30, 40, 50 mil pessoas aglomeradas num único lugar é normal que ocorram algumas brigas. Aí entra a figura do “deixa disso”, que deveria ser o papel principal da polícia. Quando começa a troca de sopapos o que acontece? Cassetada indiscriminada dos brigadianos em quem estiver por perto, bomba de gás, bala de borracha. Tudo porque dois imbecis se estranharam na arquibancada e a polícia não teve capacidade de simplesmente chegar e separar os brigões. Nas cadeiras as brigas são resolvidas pelos torcedores, sem a presença da polícia. Ou seja, onde não tem polícia, não tem confusão.
Agora a moda é blitz nas principais avenidas da cidade. O pessoal dos carros importados se sente seguro ao ser abordado com toda a delicadeza: “documentos, por favor”, “muito obrigado senhor, tenha uma boa noite”. Será que existe alguma ilusão de que um bandido, bandido mesmo, vá passar por uma blitz? O que eles fazem é confiscar o carro do pobre coitado que não tem dinheiro para pagar imposto e apertar a gurizada que sai para fumar um baseado. Motorista de carro importado nunca precisa sair da sua fortaleza. Pode ter um quilo de cocaína no porta-luva e nada lhe acontece. Já a gurizada que anda de Uno, Fusca, Gol, tem que sair, abrir o porta mala e colocar a mão no capô para também ser revistado. Se encontram uma ponta de baseado já passa a noite na delegacia.
É tudo uma questão de comando. Quem tem o controle da polícia é quem pensa que só o rico é cidadão. Pobre é marginal até que se prove o contrário. E o policial, coitado, vive no paradoxo. De dia tem que proteger a classe A e de noite tem que tirar o uniforme para poder voltar pra casa. O culpado é quem manda, ou seja, os políticos, ou seja, a alta burguesia.

segunda-feira, junho 18, 2007

Cannabis

Um baseado, Elvis Presley, chimarrão e uma cadeira confortável. Sábado. Deriva de pensamentos elaborando conexões sem nexo. Só explorando novos caminhos que algum dia podem ser trilhados em sanidade. O céu é cinza e aconchegante. Um certo calor dentro do ninho. Músculos e pálpebras cansados cheios de vitalidade. Uma leve dor interna, como não poderia deixar de ser. Órgãos maltratados. Mas ainda assim gostam da breve vida. Alguma coisa há de recuperá-los. Música para nuvens da massa de ar polar. A perspectiva do frio anima sentimentos obscuros. O fogo faz valer seu poder. A sujeira é tão familiar que desperta compaixão. De repente, não mais que de repente, tudo faz sentido. Como? Não sei, mas que faz, faz.....

sexta-feira, junho 15, 2007

Resistência

Hoje em dia o Rock’n’Roll é um movimento de resistência. Por mais absurda que possa parecer, essa afirmação é verdadeira.
O Rock, desde a sua criação, viveu sempre imerso num paradoxo incontornável: rebeldia e comercialização. Elvis Presley é um exemplo emblemático. Um jovem branco tocando música de negros nos Estados Unidos dos anos 50 era um tapa bem dado na cara do sistema. No entanto, o que ele queria? Comprar um carro e uma casa para sua mãe. Nada mais justo. Afinal, o que mais poderia querer um rapaz pobre do Tenesse? Depois do estouro inicial das suas gravações pela Sun Records, Elvis foi “vendido” para o empresário Coronel Tom Parker. Este não entendia nada de Rock’n’Roll, mas entendia muito de dinheiro. Coronel costumava dizer que quando conheceu Elvis ele tinha o potencial de um milhão de dólares em talento. “Agora ele tem um milhão de dólares”. Faço minhas as palavras de Roberto Muggiati, em seu livro Rock: do Sonho ao Pesadelo: “o drama de Elvis é que a partir do momento em que se tornou o novo rei da canção nos Estados Unidos, perdeu a vida própria e passou a ser manipulado para fins comerciais ou até para efeitos propagandísticos”.
O mesmo aconteceu com milhares de outros artistas, de todas as tendências e épocas. Porém o que diferenciava os verdadeiros rockers é que eles aproveitavam os sucesso para passar uma mensagem. Neste quesito, John Lennon é um símbolo. Depois do fim dos Beatles, todos os seus atos eram medidos para ter uma repercussão política. Bob Dylan, Jim Morrison, Iggy Pop, Lou Reed, Raul Seixas, Cazuza, nenhum deles jamais reclamou do dinheiro que ganhou, mas nem por isso deixaram de passar sua mensagem. Ou seja, o objetivo não era o dinheiro, ele era apenas uma conseqüência.
Hoje vemos uma total inversão de valores. Por quê um jovem faz uma banda de Rock? Para virar Rock Star, ganhar dinheiro e ficar famoso. Ele não tem nada para falar, e é até melhor que não tenha. O dinheiro entra para quem anda na linha, não arruma complicação, não usa drogas, não vive no subúrbio, não sabe o que se passa na sociedade. Ou seja, quem ganha dinheiro são imbecis esterilizados. O mercado apropriou-se do que lhe interessava no Rock, acabou com sua subversão e rebeldia e o transformou em apenas mais um produto da sociedade de consumo. Entretenimento e culto às celebridades instantâneas; foi isso o que sobrou da “Revolução Jovem” que abalou o mundo na segunda metade do século passado.
Chega de desabafo, vamos aos fatos. Tenho freqüentado o Garagem Hermética nos finais de semana. É, provavelmente, o único lugar que coloca músicos de Rock a tocar sexta e sábado por um preço acessível. O público médio varia de 60 a 100 pessoas por noite. Segundo Fernando, o dono do boteco, “o dinheiro não dá nem para pagar as contas do bar”. Pergunto, tentando causar uma polêmica: “então quer dizer que o Rock morreu”? “Claro! Há muito tempo! As pessoas se enganam quando pensam que todo mundo gosta de Rock. Imagino que 90% dos que realmente gostam, e pagariam para ver boas bandas, já são casados, têm filhos, o que dificulta sua saída na noite. Os outros 10% não estão nem aí para os artistas. Para eles Rock é só uma pose, uma fantasia que colocam para sair de casa. Então o que eles fazem? Alugam uma casa abandonada, contratam um DJ e forram o bolso de dinheiro”. A essa altura da conversa já começo a ficar preocupado, imagina se ele fecha o bar? “Não, alguém tem que ser a resistência”.
Graças a Deus, ou melhor, ao Pai do Rock, que ainda temos pessoas assim, que acreditam no verdadeiro sentido do Rock’n’Roll. Viva a Resistência!!!

quarta-feira, junho 13, 2007

Gripe

Gripe.
Que sensação ruim.
Dor em todos os músculos do corpo.
Frio, calor, frio, calor, frio.......
Nada na cabeça.
Por mais que quisesse não consigo pensar em nada para escrever.
Quem sabe amanhã volta a inspiração.

terça-feira, junho 12, 2007

Subversão

Para quem não sabe, este blog faz parte de uma rede semi-clandestina de apoio a ações subversivas, com sede em diversos países do mundo. Nosso lema é “imploda o sistema sem ser reconhecido”. A seguir, algumas ações que qualquer pessoa pode fazer para ajudar nessa luta:

1- plante cannabis sativa em parques, praças e canteiros da sua cidade;
2- apareça mascarado em manifestações de partidos de direita;
3- apareça com a mesma máscara em manifestações dos partidos de esquerda;
4- nunca compre jornais, todos mentem;
5- dê um abraço num mendigo;
6- ao passar por uma prostituta de rua, faça um elogio;
7- não fale com repórteres de rádio e TV;
8- ao ver um carro oficial, dê uma cusparada no pára brisa;
9- faça o mesmo ao ver um carro de luxo;
10- não fale com a polícia, eles são a face armada do inimigo;
11- escreva frases de amor nos muros da cidade e
12- invente uma nova profissão.

segunda-feira, junho 11, 2007

Eclético

Acusam-me de radical. É normal que minhas conversas acabem com um “pô meu, contigo não dá, tudo o que tu não gosta pra ti é merda”. Nada mais óbvio. O que absolutamente não quer dizer que eu não respeite quem tem opinião contrária à minha. Acho, não, tenho certeza, que cada um é livre para ouvir as merdas que quiser. Inclusive eu.
Mas como gosto de provar as coisas, tentarei mostrar agora que não sou tão radical assim. Na verdade sou até eclético demais para o meu gosto.
Sábado. Aquela ressaca chuvosa, pegajosa, tudo úmido demais, nada para fazer. O pessoal da casa já não agüenta mais olhar pra cara um do outro. Os assuntos giram em torno de “ai, minha cabeça”, “maldita mistura de uísque, cerveja, vinho, tequila, cuba, baseado e cigarro”, “cara, tô com uns calafrios”, “tem um Eno aí?”. De repente, não mais que de repente, vem da sala um som firme de bateria, baixo e guitarra distorcida. A cena é a seguinte: meu irmão na frente da tela do computador dançando ao som de Got to Choose, do Kiss.
“Aí velho, vou montar uma coletânea das músicas que eu mais gosto do Kiss”.
“Então tá, uma cada um”.
E aquela tarde que parecia tão depressiva transforma-se, de um momento para outro, numa festa. Room Service, King of the Night Time World, Let Me Go, Rock’n’Roll, Christine Sixteen, C’mon and Love Me. Horas e horas do mais puro Rock. As músicas são analisadas ao extremo. O encaixe das guitarras com o baixo, o sotaque new yorker do Paul Stanley, a lembrança da performance ao vivo.
Já recompostos, hora do banho e janta. E quem assume os alto falantes? B. B. King. Uma coleção de alguns blues funqueados, tipo anos 70, com naipe de metais e backing vocals perfeitos. O típico som para esquecer que existe um som e do nada prestar atenção numa passagem. “Putz, o negrão é foda!”.
No fechamento da preparação para a noite (Beatles Fun Club Band no Garagem Hermética) ainda aparece o guitarrista da nossa banda com sete discos do Elvis para gravarmos no computador. Tem inclusive um especial somente com canções natalinas.
Bem, até agora parece que falei, falei e não disse nada. Ainda podem me acusar de não ter nada de eclético no que ouço. Mas eu tenho ainda um trunfo. Lá vai a prova cabal de que sou um cara que ouve de tudo:
EU ADORO LEGIÃO URBANA!
Sim, é verdade e não tem nada de exagero. Adoro mesmo. Renatão, grande rocker. O fato dele ser uma baita bichona mascara sua verdadeira face: Renato Russo foi, sim, um grande rocker. Lembro como se fosse hoje de uma entrevista, tipo 1989, 1990, em que o repórter pergunta: “o que é a Legião Urbana”. Resposta: “é uma banda de rock, nada mais que isso”.
Para ver como não é fácil admitir que se gosta de Legião, já estava tentando me justificar. O fato é que gosto mesmo. Música, letras, postura, tudo. Desde aquele som semi-punk do primeiro disco, até uma choradeira corta-pulsos tipo Clarisse do disco póstumo.
Para mim o Renato Russo sempre teve uma imagem de irmão mais velho. O tipo do cara que te dá a real, mas não toda. Vai e descobre. Faz algumas loucuras e curte as conseqüências, sejam elas boas ou ruins. Ele foi companheiro em situações importantes da minha vida. Desde os encontros da turma debaixo do viaduto para tomar vinho e tocar violão (Eduardo e Mônica, Pais e Filhos, Que País é Esse, Quase Sem Querer), até a solidão depois que a namoradinha da praia voltava para a Capital (Acrilic on Canvas, Andrea Doria, Teatro dos Vampiros, Só Por Hoje).
Talvez por isso eu tenha sentido tanto sua morte. Putz, foi chato pra caralho. Estava depois do ensaio no boteco, tomando café preto e comendo quindim, quando soa aquela música do plantão da Globo: “morreu hoje o vocalista da banda Legião Urbana, Renato Russo...”, já não ouvi mais nada. Admito que chorei. E talvez por isso hoje eu seja um cara tão eclético a ponto de não ter medo, nem receio, nem vergonha de dizer:
EU ADORO LEGIÃO URBANA!

sexta-feira, junho 08, 2007

Jogos

Demônios e santos jogam do mesmo lado
Brincam com a vida
Na minha, na sua frágil mente humana
O espetáculo está aí

Sou um peão ou sou a mão?
Sou ator, diretor, sou público?
A cerimônia não tem nome, não tem fim
Dancemos?

Enquanto observo participo do jogo
Enquanto canto, sou observado
Papéis são só papéis
E tu, quem és na realidade?

Não te conheço, nem pretendo tanto
Não te entendo, apesar de querer tanto

Não posso ser perfeito
Te queria imperfeita comigo
O imperfeito é quem ama
A perfeição te deu o medo

Quem ganha?
Eu perco

quinta-feira, junho 07, 2007

O fim da cachaça

Estamos órfãos da cachaça. Mas não qualquer uma, nem 7 Campos, nem Sagatiba. Estamos sem aquela cachacinha curtida com frutas, ervas e folhas, que fazia a alegria dos bêbados de todas as classes sociais. O templo dessa bebida, o glorioso Bar João, fechou há anos. O direito à bebedeira era universal. R$ 0,50. E lá estavam os punks, os mendigos, os universitários, os hippies, os judeus, os bancários, os músicos, todos com um martelinho na mão. Lembro de uma tarde em que fomos lá decididos a experimentar todos os sabores. Alguns abandonaram logo. Eu desmaiei no Teletubbie. O campeão conseguiu tomar um martelinho da cachaça de tijolo....
Bem, fecharam o João, e fomos obrigados a migrar. Paramos no bar do Adriano (já perceberam que os bares de cachaça têm nomes próprios?). Quantas noites, daquelas que não se tem nada para fazer, sem dinheiro no bolso, não acabei escorado naquele balcão bebendo um veneno que chamavam de “maracujazinho”? Ali também foram consumidos litros e litros de cachaça curtida. Tinha também o folclore de pedir um sabor daqueles esquecidos só para ver o seu Adriano buscar a garrafa na prateleira com a “mão biônica”.
Os sabores variavam de acordo com a moda. Sim, existia uma moda de sabores de cachaça. Provavelmente o mais clássico seja o butiá, sempre com uma boa saída, pedidos constantes durante a noite. Quando o cara andava meio mal do estômago pedia uma de losna. A de canela teve seu tampo de glória. As de frutas em geral também sempre estiveram no gosto dos bêbados, principalmente as gurias, com um destaque especial para o abacaxi. Claro que não podemos esquecer a purinha, que sempre será a purinha. Mas o auge do refinamento foi quando o pessoal descobriu a cachaça de barrolda, que na verdade se escreve warrolda. Bons tempos....
Mas porque estou escrevendo isso tudo mesmo? Ah, sim. Esses dias andávamos pela Cidade Baixa, eu e meu irmão, e decidimos tomar uma canha. Simplesmente não sabíamos aonde ir. Reparem no paradoxo: o bairro boêmio da cidade não tem um boteco que venda pinga curtida.
Voltamos tristes para casa.
Verdadeiros órfãos da cachaça

terça-feira, junho 05, 2007

'ista'

Admito que vivo tentando ser um ‘ista’. Na tenra idade me empolguei um pouco com as idéias comunistas, mas não tenho vocação para a religião. Os socialistas me parecem muito acomodados, até porque hoje são todos reformistas. Entrei em contato com os anarquistas, mas a luta deles é tão constante que não sobra tempo para uma curtição. E no fundo, no fundo, eu adoro tomar uma Coca-Cola quando acordo de ressaca. Valorizo os ambientalistas, mas sou um animal urbano, gosto do cinza, do barulho, da multidão. Dos capitalistas não posso gostar. Eles de fato são muito malvados.
Hoje me sinto mais do que nunca um “raulseixista”. Assim, posso ser o que quiser, com a liberdade de tirar uma onda de todos os outros que me agradam e desagradam. Sem contar que a vida rocker é, por si só, uma afronta à sociedade, qualquer sociedade. E é a que mais se encaixa no lema “Prazer, Paz e Liberdade”, na verdade uma corruptela minha para “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll”.

segunda-feira, junho 04, 2007

Provas

Só para provar que eu não estou ficando louco, reproduzo a seguir trechos da reportagem Os donos da agenda, da revista Carta Capital nº447:
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"Segundo as entrevistas realizadas para a elaboração do relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento), entre os quais vários presidentes e ex-presidentes, quem hoje exerce realmente o poder não são os governos ou os partidos, e sim os grupos econômicos e financeiros (79,7% das respostas) e, logo atrás, os meios de comunicação(62,2%).
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No fim do texto o repórter ainda faz referência a uma frase de Karl Krauss, que diz o seguinte: "Como é governado o mundo e como iniciam as guerras? Os diplomatas mentem aos jornalistas e depois crêem no que lêem". Eu sugeriria uma pequena correção na segunda parte: "Os empresários combinam mentiras com os jornalistas e depois crêem no que lêem".
É o totalitarismo privatizado, ditadura econômico-financeiro-midiática. Segue a luta contra todo e qualquer tipo de emprego e trabalho. Chega de vender barato nossas vidas para sustentar as mordomias de meia dúzia de magnatas.
"Prazer, Paz e Liberdade" para todos!!!

sexta-feira, junho 01, 2007

Nostalgias

Numa tarde fria e chuvosa somos todos um pouco Bob Dylan. Penso em nostalgias de quando me achava um adulto sem saber o que queria ser quando crescer. Caminhava por ruas desertas, uma mão no bolso, outra se torturando pelo prazer de um cigarrinho. Um tempo em que só imaginava grandes amores, grandes atos, grandes aventuras, que as grandes cagadas de hoje fazer parecer brincadeira. Era outra cidade e outro guri. Os visito em tardes assim, frias e chuvosas, e por que não sonhar um pouco? Brincar de Bob Dylan e escrever poesias que nunca serão lidas. Vagar por ruas desertas maltratando os pulmões e mãos sem luvas. Entrar numa livraria e botar uma banca de intelectual, mais um livro para a prateleira. São muitos anos e por incrível que pareça a grande pergunta é a mesma: o que vou ser quando crescer?

quinta-feira, maio 31, 2007

Totalitarismo privatizado

Prometo que este é o último texto dessa leva de indignação geral contra qualquer coisa parecida com sociedade. Seguimos em campanha ferrenha contra todo tipo de emprego. É chegada a hora de decretar o fim do trabalho e iniciar a era do prazer.
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"Prazer, Paz e Liberdade" para todos!!!
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Vivemos no mundo da escravidão econômica. A grande maioria das pessoas simplesmente vaga pelo planeta sem o mínimo de controle sobre suas vidas. Vendemos barato nossa força, nossa fome, e abrimos mão de qualquer tipo de pensamento. É uma sociedade global controlada por um único regime totalitário; totalitarismo privatizado. O ridículo do óbvio é que eles fazem o óbvio parecer ridículo.
Foi-se o tempo da soberania nacional. Hoje os governos fazem um papel meramente figurativo. Sua principal função é legitimar os interesses de mega-corporações industriais e financeiras. O Rio Grande do Sul, infelizmente, está chegando ao auge desse processo. Há pouco tempo essa relação era uma simples troca de influencias para corte de impostos, camuflado com o nome de incentivo fiscal, e um discurso de geração de empregos. Hoje a moda é o papel, e são as multinacionais que mandam no Estado: escolhem secretários, passam por cima da lei, não têm nenhuma preocupação com o meio ambiente, vão gerar um número pífio de postos de trabalho e vão impedir a reforma agrária.
O Brasil é o paraíso do mercado financeiro. Conseguimos a façanha de privatizar nossa dívida. Quem não gostaria de comprar títulos que pagam os maiores juros do mundo? Esse verdadeiro buraco negro consome cada vez mais dinheiro da educação, que seria nosso único caminho para um verdadeiro progresso. Professores são tratados como lixo humano, uma função subalterna. Os alunos são marginalizados e oprimidos pelo sistema escolar e pela pobreza. Nossa saúde curativa gera o caos num sistema que foi feito para ser preventivo. Mas também, como prevenir doenças com esgotos a céu aberto, comunidades inteiras que moram no lixo, má alimentação, ignorância e descaso?
As guerras contemporâneas comprovam que quem governa o mundo são as companhias de petróleo. Do Oriente Médio não é preciso nem falar. Na África, países como Angola e Nigéria possuem governos que estão lá à força simplesmente para proteger os campos de extração da Shell e da British Oil. A América Latina virou um cassino financeiro e um parque de experiências no qual as empresas mais poluidoras do mundo vêm jogar seu dejetos. Estamos acabando com nossa maior riqueza, a água, em troca de míseros subempregos e poluição química.
As conseqüências disso são bilhões de seres humanos tratados como lixo nos países subdesenvolvidos e o tão falado “problema da imigração” nos países da Europa e América do Norte. Eles criam os escravos e tentam nos acalmar com promessas de consumo. A ilusão de uma vida de luzes leva milhares de pessoas a procurar o centro do capitalismo, que dizem ser tão bom e nunca chega até nós. Quando eles reclamam da invasão de latinos, africanos e asiáticos, fazem o óbvio parecer ridículo. Afinal, de quem é a culpa? Não conseguem ver que a causa de seus problemas é a mesma dos nossos problemas?

quarta-feira, maio 30, 2007

Brincando de guerrinha

Vivo, ou melhor, sobrevivo no Brasil. Milhares de indefesos ignorantes passam por mim todos os dias e nada consigo fazer por eles. Grandes poderes, não tão ocultos como dizem, tomam as rédeas da nação.
Enquanto volto de minha janta percebo uma agitação na rua. São em torno de dez crianças que correm e se jogam o lixo da burguesia. Uma delas se aproxima e diz: "ei tio, me dá um gole?". Eu tenho uma lata de Coca-Cola nas mãos. Olho bem para ele. É um menino que não passa dos seus 12 anos. "Que bagunça vocês estão fazendo, hein?". "Não tio, a gente só tá brincando de guerrinha". "Tudo bem, pode levar, mas divide com teus amigos".
Sigo meu caminho, pensando na contraditória brincadeira de guerrinha, quando ouço o grito da voz infantil: "sai prá lá meu! Ele deu prá mim!".
Mentira, mas como cobrar a verdade de quem vê a falácia morando em castelos, em mundos fechados e com a cara estampada na TV?
Traição, mas como cobrar honestidade de quem vê a cada quatro anos um caminhão de promessas repetidas e nunca cumpridas?
Violência, mas como querer paz de alguém que vê a polícia batendo antes para perguntar depois, quando pergunta?
Giro a chave nas grades do meu prédio. Subo as escadas praticamente sem forças, tamanha a inutilidade que sinto em meu peito. Ligo a TV e ouço: "o Brasil continua crescendo!".
Para quem?

terça-feira, maio 29, 2007

Ilusões

A grande evidência do Século XXI é que vivemos um mundo de ilusão. Ilusão do emprego, de país, de liberdade. O povo é levado pelo discurso oficial a dar graças a Deus por um salário de fome. Os escravos negros do Brasil Colônia e Império lutavam, ou pelo menos, queriam a liberdade. Nós, os escravos modernos, desejamos do fundo do coração a escravidão.
A verdadeira educação, libertária, é trocada por um ensino mercadológico e ilusionista. O tal “mercado de trabalho” é uma mentira. Os alunos de escolas e faculdades recebem cérebros pré-fabricados para o consumo de antidepressivos em função do futuro desemprego. Esses pelo menos ainda são considerados os remediados. O povo de verdade não tem nenhuma expectativa.
O paradoxo das elites é que elas incentivam e condenam o caos. Se o lucro da grande empresa diminui de 10 para 9 milhões, a sociedade recebe uma nova leva de desocupados. Ao mesmo tempo, o pânico toma conta dos carros importados através de manchetes sangrentas nos jornais. A lógica é: a empresa demite, o Estado encarcera. Essa mesma elite, com suas festas regadas a champagne e cocaína, fica muito preocupada quando seus bandidos vão para a cadeia. Como pode o grande empreendedor que construiu aquela maravilha da destruição ambiental chamada Costão do Santinho ir para o xadrez? Pior, o cara do Iguatemi de Floripa? Ou as lavadeiras da Portocred? “Vejam quantos empregos eles criaram”. Escravos!!! Manifestações de solidariedade na TV, colunas de jornal, lágrimas e mais lágrimas nos ternos Armani e bolsas Vitor Hugo.
Enquanto isso, os mortos de fome do tráfico são jogados nas senzalas modernas e não merecem sequer uma lembrança. Pelo contrário, a elite quer mais polícia, mais prisões.
O discurso é eficiente e entorpecente. A cidade é o absurdo dos muros: de um lado a favela, de outro o condomínio de luxo. E o sonho do morador da favela é trabalhar no condomínio, enquanto deveria ser colocar fogo nas diferenças.

sexta-feira, maio 11, 2007

Entrevista psicótica

Tudo pronto para mais um ritual de defumação na sala do Apartamento 2. A agulha começa a riscar o lado B da trilha sonora do filme The Song Remains The Same. Um lado, uma música, um instrumento. O sol do entardecer em feixes amarelos sobre as partículas azuladas da fumaça. A bateria não pára seu ritmo alucinante. Há dança e um desligamento total da matéria. Quando abro os olhos lá está ele, sentado no meu sofá, com uma garrafa de uísque e um cigarro nas mãos.
-What a fuck are you doing? Dancing like a fat Jim Morrison….
-John Bonham?
-You are crazy and blind…… Of course I’m Bonham.
E assim começou minha primeira entrevista psicótica, que reproduzo a seguir.

Devaneios: Já que você apareceu, como estão as coisa lá no céu?
Bonham: Não faço a menor idéia.
Devaneios: Como assim?
Bonham: Bem, quando eu morri, o pessoal que cuida da entrada para a outra vida já tinha ouvido falar que eu tocava bateria, digamos, com um volume um pouco alto para os padrões divinos. Então fizeram o que fazem com a maioria dos rockers que passam: me mandaram para o Red Light Bar.
Devaneios: Deve ser uma boa segunda vida....
Bonham: É, a gente fica tocando, bebendo, e curtindo uma com a mulherada. Nada demais.
Devaneios: Com quem você tem tocado?
Bonham: O pessoal de sempre, Hendrix, Bon Scott, Brian Jones, Lennon. A pouco fiquei feliz com a chegada de John Entwistle. É uma turma boa.
Devaneios: Você conhece Raul Seixas?
Bonham: Sim, claro. Mas ele fica mais de canto. Está finalmente escrevendo o livro que tanto queria. Ele só toca quando Elvis o convida.
Devaneios: Mas o Elvis morreu? Por aqui tem gente que jura que ele ainda está vivo....
Bonham: Não, não. O Elvis morreu. Só que ele é o tipo de cara que gosta de virar assombração. Quando a filha gostosa dele casou com o branquela pedófilo ele ficou puto.... Aí ele volta, dá um susto nos cretinos e vai para Vegas relembrar os bons tempos. Acho que até hoje ele não perdeu um concurso de sósias de Elvis.
Devaneios: Vamos falar um pouco sobre assuntos terrenos. Esses dias o Ian Anderson andou falando que o Jethro não é uma banda de rock....
Bonham: Esse é o problema de viver demais. O cara passou os últimos 50 anos cheirando até talco de criancinha e ficou com o cérebro derretido. Se bem que essa história de show com orquestra é uma puta enganação....
Devaneios: Mas o Jimi Page, o Robert Plant e o John Paul Jones também gostam de um violino....
Bonham: Aqueles putos! Que saudade...... É, eles gostam, mas bem de canto..... Tá bom, é verdade. Mas foda-se o Jethro, não sei por que vocês ainda levam a sério esses caras. O Ian sempre foi um palhaço e agora quer dar essa pinta de músico intelectual. Foda-se.
Devaneios: Bem, a música está acabando. Uma última pergunta: é justo dizer que o Rock morreu?
Bonham: Daqui a uns 50 anos, quando você vier para o Red Light, você me diz.

quinta-feira, maio 03, 2007

Um poema

Só tu mesmo, Porto Alegre
Com tuas ruas de castelos e barracos
Que faz descer o ar,
Ar castigado por madames e mendigos,
E ouça bem o que lhe digo,
Por amores escondidos
Que custam a se revelar

quarta-feira, maio 02, 2007

Imperdoável

O pessoal dos carros importados anda muito preocupado com o futuro do Brasil. O empresário vê seu lucro de 11 milhões diminuir para apenas 9 milhões por causa dos encargos sociais dos operários. O médico que cobra até 500 reais por uma preciosa meia hora do seu tempo particular ganha apenas 5 reais por um atendimento do SUS. Os executivos estão perdendo reuniões importantíssimas porque os aviões não querem mais sair do chão. A violência, nem se fala: “não dá mais para sair na rua”. E ainda por cima o governo mata a fome de milhares de pessoas com o Bolsa Família, um programa eleitoreiro e oportunista.
Enquanto isso, o povo do salário mínimo é totalmente irresponsável. Gasta suas economias num churrasquinho com cachaça no fim de semana. Pede com toda elegância para os vizinhos por favor guardarem as latinhas em troca de uns 20 reais no fim do mês. Olha a novela depois de duas, três horas de ônibus em direção ao subúrbio. Só fala de futebol e mulher pelada. Compra CD e DVD pirata.
E o que mais assusta é quando, num momento de total falta de critério, o assalariado dá uma esmola para a criança que passa fome e frio na esquina. Isso sim é imperdoável.

sexta-feira, abril 27, 2007

Até tu, Ian

Por volta dos meus 15, 16 anos de idade eu conheci o Jethro Tull. Foi uma revolução no meu conceito de Rock’n’Roll. É daquelas bandas das quais não damos muita bola na primeira vez que ouvimos. Mas passa um tempo e vem aquela vontade irresistível de botar o disco de novo. Até tornar-se um vício, a ponto de ouvir cinco vezes o “Aqualung” inteiro sem tirar do aparelho. Nas conversas de bar com a turma rocker, o Jethro sempre figurou entre “as quatro bandas fundamentais”, junto com Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. Claro que com algumas reclamações iradas do tipo “sem Beatles e Rolling Stones eu saio dessa mesa”, ou “meu Deus, não dá para conversar com radicais como vocês”.
De qualquer forma o que vale é a ilustração de que a banda é uma das pedras fundamentais do Rock. Afinal, não é à toa que eu tenho tatuada a capa do “Too old to Rock’n’Roll, too young to die” nas costas.
Eis que essa semana o Jethro Tull veio para Porto Alegre. Única apresentação, segunda-feira, no Teatro do SESI. Infelizmente não pude ir. Questões econômicas (o preço do ingresso, R$ 100, é quase um quarto de meu salário, mais o show do Nazareth) impediram minha presença. Mas tivemos representantes lá, e todos foram unânimes em afirmar que foi um verdadeiro espetáculo, com direito a “uma versão muito louca de ‘Aqualung’”.
Ontem, numa janta de pinhão e vinho lá em casa, entramos no assunto Jethro. Foi unânime a reclamação de que eles deveriam tocar num lugar maior para cobrar um preço mais acessível. Até que alguém se levanta e diz: “eles não querem tocar para grandes públicos porque não são mais uma banda de Rock”. Espanto geral, todos atônitos. Como assim não são mais uma banda de Rock? “Foi o próprio Ian Anderson que disse”.
Vou pesquisar e lá está, no site Whiplash: “Em entrevista realizada pela jornalista Juliana Girardi, da Gazeta do Povo, o vocalista Ian Anderson afirmou que o JETHRO TULL não é uma banda de Rock e diz que um bom show tem de ter doses de confusão e dúvida; confira abaixo um trecho: "Acho que o Jethro Tull seria muito mais conhecido se fôssemos uma banda de rock pesado. Se ainda hoje tocássemos como na época das turnês de 'Aqualung' e 'Thick as a Brick' seria como uma “quick fix” (dose mínima para atingir o efeito de uma certa droga), como uma picada de heroína ou uma carreira de cocaína, seria como uma forte dose de uma droga poderosa. Mas eu não me interesso por drogas de nenhum tipo”.
Que ele não queira tocar em estádios, nem ser comparado com uma droga, tudo bem. Agora, o que isso tem a ver com não ser mais uma banda de Rock? Que declaração infeliz. Podia muito bem ter falado assim: “nós somos uma banda rock diferente, queremos impressionar os fãs a cada show”, ou qualquer outra coisa. O que ele não pode é desrespeitar toda uma história construída em mais de 40 anos de carreira; seus fãs, pessoas que acreditam no Rock’n’Roll. Se ele tem o sonho de tocar em orquestras para a elite, que faça um teste para a Filarmônica de Berlin.
O Jethro é, sim, uma banda de Rock, mesmo que o senhor Ian Anderson não queira. Termino com uma sugestão: troque o nome do seu conjunto. O Jethro Tull não é mais seu, é de todas aquelas pessoas que nos últimos 40 anos compraram seus discos e acreditaram quando o senhor gritava a todos pulmões: “i’m never too old to Rock’n’Roll”!

P.s.: Enquanto isso, os Rolling Stones estão fazendo show de graça na praia e cheirando as cinzas dos pais.

terça-feira, abril 24, 2007

O Inevitável

Tudo parado no sábado de tarde, sem sol, sem chuva, sem vento; só gritos, de crianças, de carros e ônibus que desfilam sem cessar pela passarela da vida cotidiana. Pobres e ricos se misturam no frenesi de suas casas, hospitais da alma e do corpo, em florestas artificiais que nos trazem uma paz artificial para nossa vida artificial. Eu, eu tento molhar minha garganta com um pouco de água morna que a duras penas puxo pela bomba entupida. Olho meu pé, penso em cortar as unhas, só penso; penso em ouvir um som, só penso; telefone, nem pensar, que me deixem só, podia até tirar da tomada, mas não vale o esforço, ninguém vai ligar.
Acredito no que dizem, que o mundo não tem mais nada além das poesias e profecias das mesas dos bares por onde ando. Acredito, mas tenho uma casa e uma cadeira, tenho ar e tenho este pensamento ridículo de que eles estavam certos, de que as palavras não valem mais nada, inclusive a suas, que ecoaram pela cabeça ébria de orelhas dispostas e boca sedenta. Paga aí que eu ouço tudo, e acredito.
Meus vícios são só vícios, não estou fugindo de nada, se bem que posso estar fugindo de nada. Ainda bem que não tem sol, nem chuva, nem vento, só aquele mormaço estranho de inverno quente, que faz o corpo suar porque tirar o agasalho parece ridículo no inverno. Nem isso é mais igual aos tempos de criança, inverno não é mais frio, sonhos não se tornam mais realidade, na verdade, sonhos não aparecem nem mais em sonhos. A realidade prende e paira no tempo que arrasta para o destino comum de todos.
Poderia estar acompanhado agora de alguém que não conheço. Não, não tenho mais paciência para esses jogos que se desenvolvem, palavras de duplo sentido, palavras sem sentido, e no fundo um arrependimento com raiva e enjôo. Acordar só é uma grande coisa. Sou só, único responsável pela mediocridade alegre ou triste que acorda comigo.
O silêncio de dentro está muito grande, nada interrompe a seqüência de pensamentos desconexos, meio reais, meio devaneios que não controlo. A preguiça assumiu controle total. Senão, poderia fazer algo, nem que fosse esquentar mais água. Calço os chinelos, olho em volta e sinto como as pálpebras estão pesadas; resquícios. Num esforço extremo levanto e entro na sala. Olho em volta, até que está bem arrumada, os discos espalhados e os recortes de revista, tudo no lugar. Arrumado não é limpo. Vou para a cozinha, a pilha eterna da pia está menor, dá para colocar a chaleira em baixo da torneira. O gás deve estar no fim, a chama alta mal e mal sai da boca. Tomara que esquente minha água, não quero ter perdido todo meu esforço. Acendo o último cigarro para esperar, sempre um cigarro para esperar, e assim vou me matando; bobagem, todos estamos nos matando, só de respirar, ar dá câncer.
Terminou, o gás. Não dá nada, a água ficou morninha, dá para o gasto. Acho que agora podia botar um som, realmente tá muito silêncio aqui. Paro na frente dos discos, sempre os mesmos discos. O telefone também está mudo, olho um pouco, não vai tocar. Volto aos discos, um blues, um rock, rockinho, nada pesado, quem sabe nacional, não, blues mesmo. John Lee confessa sua dor na minha sala.
Até parece ser um bom dia, não estivesse quase no fim, quase novamente noite para mais uma vez entregar tudo ao inevitável. Antes vou curtir esta metamorfose, este momento raro em que o céu fica verde aos nossos olhos já não tão correspondentes à realidade que todos querem ver. É claro, imaginamos, mas não são imaginações tudo aquilo que vivemos por conta do pensamento alheio, pensamento de TV, de grandes verdades proferidas dia a dia pelas mesmas bocas, nas mesmas horas?
Meu Deus, ainda tenho um cigarro! Como fui ter este gesto involuntário de apalpar o bolso da camisa? Logo ele, sempre esquecido, relegado a segundo plano, guarda a chave da minha morte e minha tranqüilidade. Bendita fumaça que preenche os pulmões e manda tudo o mais para o inferno. Todas as coisas que deveria ter feito hoje e não fiz. De propósito porque me entregando ontem já sabia que nada seria feito, que toda a esperança é inútil e que a desgraça sempre acompanha a alegria.
Pelo menos ela está ali, e é nela que vou depositar toda minha dor e minha esperança, meus medos e minha força, toda esta abençoada desgraça que dia após dia povoa minha mente de inspiração e desejo de percorrê-la com meus dedos até o sangue. Deusa que tantos homens já levou para o túmulo, que domina vidas, sonhos e sentimentos. Má companhia que insistentemente carregamos nas costas e mesmo jogada a um canto controla nossas vidas sabendo que mais cedo ou mais tarde teremos que acaricia-la no afã de esquecermos relembrando tudo.
Acabou o cigarro, acabou a bebida, o telefone continua mudo, e lá me vou com minha guitarra ao desconhecido da noite.
Outra vez.

quinta-feira, abril 19, 2007

Nazareth e a morte do Rock'n'Roll

O Rock’n’Roll está, de fato, nos seus últimos suspiros. Hoje já não existe mais amor ao som. Ninguém quer saber de curtir uma boa festa. Sim, é isso mesmo, e vou tentar explicar com um exemplo prático.
Show do Nazareth, no bar Opinião em Porto Alegre. Estou saindo de casa e dou de cara com um grande rocker, que não via há tempos: Jaime Rocha. Nos abraçamos e ele me olha, sério: “cara, tu acredita que eu não achei um gato pingado para me acompanhar no show?”. Infelizmente tenho que acreditar. Há uns cinco anos teria excursão de Caxias, ingressos esgotados, cambistas, engarrafamento. No entanto, esta parece uma quarta-feira como outra qualquer, talvez até mais quieta. Nas duas quadras que andamos até o Opinião, nenhum movimento de camisas pretas, os bares da José do Patrocínio estão com mesas sobrando, na rua os ônibus seguem com seus trabalhadores para casa.
Entramos em cima da hora, sem fila e sem revista. E aqui ponho um ilustrativo paralelo. Recentemente fui ver a Nação Zumbi, no mesmo local, e nem preciso contar a confusão que estava instalada na rua. Depois da fila, o segurança quase me vira do avesso, procurando não sei o quê, e ainda me olha brabo. No show do Nazareth (vejam bem, uma das mais importantes bandas de Rock da história!), nada, e o mesmo segurança ainda faz uma reverência ao entrarmos no bar.
De qualquer forma lá estamos nós, e o show começa. Rock’n’Roll. Não é à toa que eles são o Nazareth. Depois da introdução já vem uma paulada nos ouvidos: “Razamanaz”. Um clássico, e o público vai ao delírio. Só depois dessa música é que me dou conta de que estou na beira do palco. À minha direita, umas 500 pessoas; à minha esquerda, ninguém. Ainda meio chocado vou pegar uma cerveja. Do mezanino até parece que tem mais gente. Vejam que estou procurando uma alternativa para aplacar minha vergonha. Claro, trazer os caras lá da Escócia, já consagrados por décadas e décadas de carreira, para tocar para meia dúzia de gatos pingados aqui em Porto Alegre, a “cidade rocker”, é uma vergonha.
De qualquer forma vou para o bar, e quase tenho que acordar as garçonetes. Volto para a pista e me abraço na minha namorada para ouvir “Dream On”, que automaticamente passa a ser a “nossa música”. A seguir, uma sucessão de hits: “Telegram”, “This Flight Tonight”, em “Hair Of The Dog”, Dan McCafferty entra com uma gaita de fole e faz um som inacreditável. Novamente delírio na platéia.
Presto atenção em Pete Agnew, e aquele senhor de fila para idosos está totalmente absorvido pelo som. Sua emoção é contagiante. Sem falso sentimentalismo, chegam a me brotar lágrimas nos olhos. Até porque depois de mais de duas horas de puro Rock’n’Roll eles atacam de “Love Hurts”. Nem o mais carrancudo dos motoqueiros resiste e ergue os braços: “love hurts, love hurts”....
Na saída encontro o Rafa, guitarrista da Só Creedence. Comentamos o show e outras amenidades, quando vamos tocar novamente, essas coisas. Lá pelas tantas ele me olha e diz: “Cara, em que shows eu vou levar o meu filho?”.
Meu amigo, o Rock’n’Roll morreu. Essa é a triste realidade.

quinta-feira, abril 12, 2007

A violência das ruas

Olhava eu um programa de TV, quando um senhor enche o peito para dizer: “não se pode mais andar a pé pelas ruas”. Todos concordam. Isso que não são nem tão velhos assim. Imediatamente penso: que tipo de louco sou eu? Sim, porque parecia uma obviedade unânime o fato de não se poder mais andar pelas ruas.
E fico me perguntando o motivo. Será o calor senegalês desses verões de aquecimento global? Quem sabe o calçamento irregular esteja provocando muitos tornozelos quebrados? Muitas pessoas, aquele cheiro de asa, gritos, “CD e DVD”, “vale, vale, vale”?
Passemos a brincadeira. Os senhores engravatados estão muito preocupados com a violência. “Assaltos”, dizem eles, “por todos os lugares as pessoas estão sendo roubadas”. Este já parece um texto muito interrogativo, mas insisto: como sabem de tudo isso se não andam mais pelas ruas?
Na verdade eles têm medo dos pobres. Medo daqueles jovens esfarrapados e com cara de mau que ousam olhar pela janela dos seus Mercedes e pedir uma moedinha. Medo do mendigão que dorme bêbado sob as marquises. Das crianças-zumbi com seus paninhos na boca e tubos químicos no bolso.
Pobres senhores. Mas sinto pena mesmo dos seus filhos. Minto: na verdade eu sinto medo dos seus filhos.
Eu, quando criança, por uma incrível luz pedagógica de meus pais, andava só pelas ruas de Caxias do Sul. Bem, talvez eu esteja supervalorizando a educação familiar, já que naquela época a violência não era o assunto da moda. Eram tempos de inflação, corte de zeros, congelamento de preços, etc.
O fato é que eu andava pelas ruas, e lembro de coisas fantásticas. A prateleira de discos da loja Hermes Macedo, o homem que se embalava com a cuia de esmola em frente às Livrarias Paulinas, as prostitutas da praça, o cheiro de cachorro quente das barraquinhas, o sabor dos churros, as placas brilhantes do Bazar Nair. Mas lembro também de todas as vezes que fui assaltado.
Tinha eu entre 9 e 12 anos e os pivetes, aproveitando-se de minha latente ingenuidade, levavam meu dinheiro do lanche, meu relógio, até meu caderno. Voltava desolado para casa, reclamando a perda. Meu pai, insensível, simplesmente dizia: “acontece”. Acontece! Como assim acontece?! “Eles não têm dinheiro, então pegam de quem tem”. Uma explicação furada, eu pensava. Afinal, aquelas coisas eram minhas. E lá ia eu novamente para a rua, e voltava assaltado.
Até que fiquei mais velho e comecei a “pegar as manhas” da calçada. Primeiro sabia onde não andar. Depois já os olhava no olho, com uma cara de “nem vem que comigo não rola”. Parti para as madrugadas e lá descobri que somos todos iguais. Na verdade é o próprio medo que chama o roubo. Em pouco tempo já jogava bola com os caras que antigamente levavam meu dinheiro do lanche.
Sigo sendo assaltado, mas o sangue frio que adquiri me livrou de várias. Hoje converso com quem vem me roubar. Nunca usei de violência, só de palavras, e tenho sido bem compreendido.
Voltemos aos filhos dos senhores engravatados.
Essas crianças vivem trancadas. As ruas que conhecem são as do condomínio fechado onde vivem. Talvez as avenidas que levam ao clube ou ao colégio, tudo por trás dos vidros blindados e na companhia de seguranças. E assim será até a faculdade, quando ganharão um carro para ir às aulas.
Agora vamos ao meu medo. Imagino o dia que terei que falar com uma dessas crianças, que no futuro serão as pessoas importantes da sociedade. Se eu não estiver com a roupa adequada, pedir as horas e fizer um movimento brusco, sou capaz de tomar um balaço na cabeça. Afinal, nunca se sabe: a violência está por todos os lados.

quarta-feira, março 07, 2007

Tarde de verão...

... tudo parado. O ar espesso como óleo, difícil, atinge os poucos alvéolos úteis. Fôlego. Vida. Talvez um pouco mais, talvez muito mais. Reis que gritam nas caixas de som incentivam, atormentam, inundam de prazer rápido e imediato a mente disposta (e a não disposta) a ouvi-los. Um breve sopro de vida, uma idéia que nunca irá para o papel, um choro, um riso, sirene, personagens inconscientes que não marcam, existem sempre mas não marcam. Tudo por um instante parado é uma pintura, em movimento filme, o real – fotografia, vida, armazenada diferente, cada um com a sua mas sempre a mesma. O pano de fundo é imóvel, imutável, mas colorido por cada um se transforma em realidades diferentes de uma só. Vento (novidade), sentidos, cheiro, gosto. Também são os mesmos, característicos, mas como podem ser diferentes. Sinais, surpresas, parte do real e parte do irreal constroem a consciência e tudo isso por um momento faz sentido...

... tarde de verão.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Pensamentos

Parou de súbito na porta. Olhos arregalados. Sujeira acumulada por todos os cantos, verdadeiro êxtase. Poucas formas e nenhum ruído. Já não se produzia mais nada naquela sala. Todos mortos. Olhos arreglados.
Imediatamente ele se volta, recebe o ar gelado na cara. Qual seria seu maior medo, o mundo ou ele mesmo? Naqule pórtico se materializava uma existência sem início, porém muito distante de um fim. Seriam ratos a se cruzar, numa incessante fuga do espírito. No entanto uma existência insiste sem parar, até porque o relógio nunca parava, mesmo que acabassem suas pilhas.
Um passo em qualquer direção e o futuro. Duro de qualquer maneira. Sem muita chance, como dizem. Antes fosse inferno ou paraíso.

- Amigos, amigos, acordem, ACORDEM!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Não, acho que não saiu nada. Mas acontece que eu estou de pé e está frio em ambos os lados.
A porta é o ideal. Mas daqui a pouco alguém vai passar. Não vai sobrar nada deste mundo. Bem, a cinco minutos tudo parecia tão diferente. Não faz diferença.
Não é bem uma preocupação, mas um pensamento que parece obrigatório. Ele vem, é parte da estrutura do cérebro.
O que há por detrás dos quadros? E se tirássemos todos os quadros? Nú e cru. E tu. E tu! Ha, ninguém sabe, nem eu. Pelo menos eu penso nisso.
Uma fumaça, que dança rumo às estrelas, quem sabe levando um pouco de sonhos. Estes que perderam sua coisa boa, agora perece que sabem que são sonhos. Vontade incontrolável de contralar tudo.
Ei, alguém está escutando? Vocês da rua? Alguém?
Eu estou, não paro de escutar, e no entanto está tudo aqui dentro. É uma voz, minha voz, sem interferência, às vezes mais baixa, mais alta, mas sempre ela. Acredito no que me digo eu mesmo, e me levo para caminhos quase sempre já trilhados, como esta porta, estes sorrisos que estão ali dentro, ou o ar gelado lá de fora. Talvez ficar seja sensato, sensato para mim que estou dizendo isso.
Fumaça, fumaça, sonhos, pensamentos, tudo que vem cortando e desaparece como nada, como se tunca tivesse.
Como Deus, que nunca veio, nunca foi, e está aqui, sempre no fim de tudo.
Ou aquela música, mú-si-ca, antiga ou ruim de caminhadas, que escolhemos ou que chga, que não sai da mesma parte.
Ou apartamentos, estrelas infinitas, até que volte o dia e o sol acaba com a energia.
Uniformes, cabelos, discos e marcas, e nada mais com que se preocupar. Talvez o fim do mundo entre uma e outra cerveja, não é muito sério.
Afinal amanhã é só amanhã.
Não, não se levante, suas pernas são muito importantes.
Quem sabe algum dia você precise correr?

-E aí cara, tá tão quieto?
-Tava pensando.
-O quê?
-Não sei, mas acho que vai dar tudo certo.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

A mediocridade do médio

Mediocridade. Como pode o mundo ser balizado por conceitos tão ridiculamente fracos? As ações da humanidade caminham a passos largos rumo a uma total falta de atitude. Não é política, não é cultura: é vida. Uma vida sem graça, sem emoções, sem novidade, onde não faz a menor diferença conhecer alguém, porque todos somos o mesmo.
Tudo fica resumido a uma imensa classe média. Tudo é médio e tudo está ao alcance de quase todos. Um mar de gente completamente sem graça, que não vive desgraças e glórias, tristezas e alegrias, paixões e solidão. Estamos todos preocupados com o grande mundo de nossas cabeças, sempre prontas para o amanhã e nada mais que isso. Trabalho e escravidão em busca de algo que não nos pertence e nunca será nosso. Mas continuamos querendo a ilusão de que podemos. Somos a bucha de canhão jogada de lado a lado, prisioneiros de milionários e miseráveis.
Os muito ricos têm suas cidades particulares. E tudo o que precisam é continuarem a ser poderosos, transmitir confiança e articular más intenções. Os muito pobres dominam seus territórios. São livres pelo medo que despertam, e de sua maneira também poderosos. Vivem amontoados de acordo com sua própria lógica, segundo suas próprias leis. A classe média se esconde em jaulas eletrificadas, presa por medo e sonhos. Tem receio das calçadas e fica maravilhada com o mundo da TV, dos palácios, das lojas e da beleza artificial.
Grandes festas são organizadas por ricos e pobres. Enquanto uns tomam champanhe regado a drogas, outros capitalizam esses caprichos em carnaval e funk. Vejo grandes orgias em ambos os lados, sexo sem compromisso, diversão a qualquer custo. No meio está a dispersão, os pequenos grupos, a pouca vontade, o recato e, mais uma vez, o medo. Corações de gelo e preconceito. Receio de envolvimento, de conversa, grandes mundos fechados em micro-sociedades.
Nada mais é produzido com criatividade. Esta palavra morreu porque os dados já estão jogados. Nada vai mudar e ninguém quer que mude. Nos entregamos de mão beijada aos tempos modernos e acredito que condenamos toda a força do pensamento a uma morte lenta, agonizante e totalmente sem graça.