terça-feira, dezembro 28, 2010

Frio do caralho

Não tem outra expressão melhor: frio do caralho. O termômetro marca -2 graus mas a sensação é de -5. O que não faz a menor diferença. Ou por acaso alguém pensa que -2 é mais confortável que -5? Nem o sol faz diferença. São 11 horas da manhã no centro do mundo ocidental, a base da nossa civilização racional e humanista. Enquanto os filhos de uma Itália do passado circulam, em meio a turistas e a nova geração sem futuro, alguém tenta ganhar a vida. São africanos, árabes, latino-americanos e estudantes, estes últimos a raça mais discriminada do país. Para pagar as contas e comer eles se sujeitam aos subempregos do mundo desenvolvido. Nesses dias de frio do caralho, o pior deles é a panfletagem. Três horas parado numa esquina congela até a alma, para ganhar sagrados 6 euros por hora de tortura. Depois de meia hora a mão direita não sente mais nada. Já se distribui os panfletos de 2 em 2, 3 em 3. E a cara de nojo. Chega a ser engraçado. Parece que o cidadão que distribui o papelzinho de propaganda tem uma doença contagiosa. Como se não estivesse frio o suficiente ainda tem que agüentar a mal educação dos outros. Pega a porra do papelzinho e joga na lixeira, mas ajuda o vivente que está ali parado como um verdadeiro bloco de gelo. Tem aqueles que nem olham, outros que agradecem, mas não pegam. O pior, porém, são aqueles que tiram a mão do bolso e fazem que não com o dedinho enluvado e aquecido. Se não quer pegar porque ta frio, nem tira a mão do bolso, filho da puta. Tudo bem, que se foda. Falta só mais uma hora. A essa altura as pernas também já congelaram, mesmo com três calças e duas meias em cada pé. Relógio a cada dois minutos e os ponteiros ali, parados. Parece que também estão rindo da desgraça alheia. De repente chega uma velha com cara de boa senhora.

-É meu filho, vocês são o futuro da Itália.

-Pois é senhora.

-No meu tempo ninguém precisava fazer isso pra viver.

-Pois é senhora.

-Nosso país não é mais o mesmo. Uma vez as pessoas estudavam de graça, depois arrumavam emprego, podiam sustentar a família com dignidade. Tu é estudante, né? Eu sabia. Hoje em dia é assim. Mas não te preocupa. As coisas vão melhorar.

-Pois é senhora.

-Sabe que meu filho também começou assim. O primeiro emprego dele foi distribuir panfletos para poder pagar a universidade. Agora ele trabalha na administração de uma empresa faz oito anos. Eu sei que vocês vão conseguir.

-Pois é senhora.

Graças a deus a velha foi embora. Se o cara que circula fiscalizando os panfleteadores pega uma conversa dessas o cara ta fudido. Aí a Itália antes de não ter futuro já perde o presente e ganha mais um mendigo nas ruas. E tem mais, diz pro administrador lá que o negócio ta ruim e que ele se lembre da merda que é ficar na rua com -2 graus quando pedir “experiência”, “diploma” e “conhecimentos técnicos” aos jovens que buscam um emprego na sua firma. E enfim chega ao fim. Deus abençoe as bibliotecas públicas com calefação. A mão dói quando o sangue volta a circular. A tremedeira começa a diminuir e o cara descobre que está todo sujo de ranho porque não sentia a cara pra saber se estava escorrendo ou não. E isso garantiu mais 20 euros para as contas da família. Com isso dá pra pagar 1/45 da prestação da faculdade. Não dá nada. O importante é voltar pra casa e tomar um banho, porque daqui a duas horas começa o turno de garçom no bar. E já que estamos citando deus e estamos no centro do mundo católico: que ele abençoe os escravos da civilização, o futuro da nossa humanidade.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Cerveja Guiness

Guiness, porque o cara é pobre mas sabe beber com estilo. Nem que seja uma cerveja. Só uma, porque a porra do copo de Guiness vale 4 euros. Mas vale a pena. É um creme, como diz o outro. Néctar dos deuses. Líquido sagrado. Imaginem os outros adjetivos por conta. Não é só uma cerveja, senão eu não estaria escrevendo uma porra de um texto sobre uma porra de uma cerveja. E tem mais, tô a fim de escrever palavrão e escrever errado também, porque eu queria estar de ressaca de Guiness, mas não estou. Estou com a merda de uma ressaca de um vinho barato e cerveja Holandia que usei pra me embriagar. Na real, Holandia não é cerveja. É mijo de holandês em latinha com um pouco de álcool. E o vinho.... uma garrafa por 2,5 euros só pode ser uma bosta de vinho. O gosto lembra o chulé e as frieiras do cara que pisou a porcaria da uva. Não que eu já tenha provado chulé e frieira de camponês, mas dá pra entender, e se não quiser entender vai tomá no cú, porque nessa porra dessa cidade não tem uma farmácia aberta porque todos os maledetos italianos estão de férias de inverno. E ainda reclamam que o país tá uma merda. Também! Ninguém quer trabalhar nessa merda! Só os indianos e banglas que vieram da pobreza da Ásia trabalham aqui. E aí eu chego pra comprar uma fruta e o imbecil não me entende, porque não sabe falar italiano, e eu não sei falar indiano e aí já saio puto da cara num frio de rachar me tremendo todo porque esqueci que era frio aqui nessa merda e não botei todos os meus blusões de lã, nem as luvas, nem a porra da touca, porque me dá um gelo na careca, porque eu to ficando cada vez mais careca e só me falta começar a neve porque eu to de All Star e meu pé vai congelar e.....

Sim, a Guiness é uma baita duma cerveja. Mas é uma cerveja pra rico. Proponho aqui a revolução dos ressaqueiros de vinho e cerveja ruim. Invadamos a fábrica da Guiness, os pubs, os supermercados e vamos acabar com a nossa ressaca!!!

Guiness de graça para o povo!!!

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Velhas e sempre novas utopias

“A maior parte dos chefes de Estado se ocupam com maior prazer de coisas militares do que boas ações de paz, e se esforçam com maior rigor a descobrir como conquistar, bem ou mal, novas fronteiras, do bem governar aquelas que já têm.”

“Nem um simples furto é em si um grande delito, que se deva condenar à morte, nem existe pena tão grande que impeça de roubar quem não há outros meios para procurar o que comer. Neste quesito me parece que não só nós, mas boa parte do mundo fazemos como aqueles maus professores, que preferem punir os jovens do que instruí-los. Se estabelecem na verdade, para quem rouba, penas graves, penas terríveis, enquanto o melhor era dar-lhes algum meio de subsistência para que ninguém se visse na necessidade de roubar.”

“Quando se dá o caso que um só devorador insaciável, peste insaciável do próprio país, agregando campos a campos, feche com um só recinto vários milhares de hectares, os cultivadores são expulsos e, iludidos com enganos ou vítimas da violência, são espoliados das suas propriedade ou obrigados a vendê-las. Enfim, de uma forma ou de outra, vão embora aqueles desgraçados, homens, mulheres, maridos, esposas, órfãos, viúvas, pais com seus filhos e uma família mais numerosa do que rica; vão embora dos seus lares habituais sem encontrar lugar onde recuperar-se, vendem a preço baixíssimo os próprios pertences. E quando já não têm mais nada, o que lhes resta senão roubar?”

“Eu sou plenamente convicto que não é possível distribuir os bens em maneira igual e justa, ou que prosperem os negócios dos mortais, sem abolir totalmente a propriedade privada! A propriedade privada condena à indigência a maior ( e melhor) parte da humanidade. Erradicar a miséria talvez não seja possível, mas com o uso da razão se pode aliviar-la.”

“Cada um deve fazer o seu trabalho com solicitude, porém sem se cansar como um animal de carga que trabalha desde a manhã cedo sem parar até tarde da noite, coisa que seria uma pena indigna até mesmo de um escravo. Porém tal é, mais ou menos, a vida dos operários em todos os países.”

“Onde tudo se mede com o dinheiro, se exercitam necessariamente muitas artes completamente sem sentido e supérfluas, a serviço somente do luxo e do capricho.”

“Um motivo justo para a guerra é se um senhor tem um terra que não usa, antes a mantém vazia e inútil sem permitir o uso e a posse a outros, que, segundo as leis da natureza, precisam de um lugar para produzir seu alimento.”

“A cobiça é produto somente do orgulho dos tiranos, que se vangloriam em superar os outros sustentando o supérfluo.”

“Eles se espantam que exista qualquer mortal que se deleite com o duvidoso esplendor de uma gema de ouro ou uma pérola, quando se pode contemplar qualquer estrela do céu e também o próprio sol, ou que exista alguém tão tolo de se achar mais nobre aos próprios olhos por usar um fio de lã mais sutil, se a verdade é que esta lã, por mais sutil que seja o fio que dá, a carregou uma vez uma ovelha, que mesmo assim permaneceu para sempre uma ovelha.”

“Quando esses dois males, o favoritismo e a corrupção recaem sobre os juízes, imediatamente desaparece a justiça, o nervo fundamental de um estado.”

“Qual maior riqueza pode existir que, extinta qualquer preocupação, viver com animo correto e sereno?”

“Que justiça é essa que um nobre qualquer, um comerciante de dinheiro, um usurário, enfim um outro qualquer daqueles que não fazem nada, ou aquilo que fazem não acrescenta em nada ao Estado, possam viver com luxos e esplendor; no mesmo lugar em que um operário, um cozinheiro, um lenhador, um camponês, com um trabalho grandioso e ininterrupto como uma mula, necessário, tanto que sem esse nem um ano poderia durar qualquer estado, ganham assim tão pouco, vivem uma vida tão miserável?”

“Examinando em qualquer lugar e considerando os Estados que hoje se apresentam, não me parecem outro que um grupo de ricos que sob o nome e pretexto do Estado, não se ocupam de nada que não seja os próprios interesses.”

Chega por aqui. Por acaso os recortes de texto citados têm alguma relação com a nossa sociedade de hoje? Penso que sim. Porém, foram escritos em 1515 por um jovem advogado e religioso inglês chamado Thomas More no livro “A Utopia”.

O que mais me espanta é que os apelos à razão humana não começaram com More. Lá se vão quase 2,5 mil anos que Platão escreveu sua República e desde então pensadores têm trabalhado para desenvolver um sistema social que seja o mais justo possível para todos. Existem muitas diferenças entre esses sistema, mas também muitas semelhanças. Certo é que em todos se faz um apelo à razão como única ferramenta capaz de acabar com a desigualdade e a miséria do mundo. Infelizmente parece que ainda estamos muito distantes do dia em que poderemos nos considerar animais racionais. E não são só os governantes. Se o povo fosse racional já teríamos mudado a situação a muito tempo.

sábado, dezembro 18, 2010

Noites em branco

Confusão mental. Noites em branco, se é que me entendem. Neve. Frio. Calor. Parece um filme, a vida. Longe do poder e sem poder para poder qualquer coisa. Parece um pouco estranho, mas se acostuma. Dói, mas se acostuma. Longas jornadas de nada e de repente o mundo explode na cara. Contas, gente, livros; nada de filmes. Só uma triste comédia romântica dramática. E lá se vai. Mais um dia. Jantas, vinhos. Conversas jogadas ao ar para que ninguém saiba de onde vêem. Um mistério nada misterioso. Uma certeza que vem cada vez mais clara. Tudo é nada, uma sucessão de nadas. Teclados, guitarra, percussão. Pra que mais. Pra que pensar. Sem domínio de ações concretas. Sonho de algo que pode ter existido em algum tempo passado. Sonho de um futuro que sempre está avante. Avante! Longas esperas. Porque sempre terá algum futuro. Qualquer que seja. Na nostra Latino America. Longe. Na nostra Ásia, nostra África. Longe. Uma Europa que afunda a cada passo nos nativos. Ainda falaremos sobre isso em salas de aula da Austrália. Um pequeno passo para nossa Jamaica. Assim vamos crescendo rumo ao infinito. Da morte. Uma noite sem sono. Sim, eu espero. Não tem problema. Tornaremos. E os vencedores estarão todos debaixo da terra. Um mundo de perdedores. Chegou a hora. Vamos? Sem medo. Eu já disse que ele vem. O futuro. Vamos?

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Janta VEGAN

Lá vamos nós para mais uma daquelas festas. Já na entrada da faculdade de Ciências Políticas aquela mistura de Hippie-Punk-Hajneesh que costumamos ver como o melhor que nossa humanidade produziu até hoje. Dessa vez tem som ao vivo, segundo o que indicam os cartazes uma mistura de herdcore-surf-punk-death-rock-alguma coisa. O pessoal caprichou no visual, o que fica facilitado pelo frio de -3 graus. Assim não faltaram coturnos, jaquetas de couro, tachinhas, correntes, piercings, cabelos rastafári, camisas de banda, patches...

Na entrada da “sala de concertos” um belo cheiro de comida quase me faz vomitar por ter a pança já cheia de massa com molho de guisado de porco e bacon. Uma delícia. Antes, não agora. Sem tempo para qualquer reação, como ir até o bar, uma menina me alcança o menu do dia e um panfleto explicativo: antes de verbalizar toda a sua raiva incontida nos microfones a juventude enche a pança com uma janta VEGAN. Faz parte do protesto. Por isso transcrevo aqui o que dizia o panfleto:

“Vegan porque pregamos a rejeição de qualquer produto derivado da exploração animal como uma negação da mercantilização do ser vivo, opondo-nos assim à lógica de mercado que nos quer consumidores de opressão. Consideramos a discriminação como uma base através da qual o homem exerceu seu domínio sobre a mulher, o branco sobre o negro e o humano sobre os outros animais e a terra. Porque pensamos que a liberdade seja uma prerrogativa absoluta e não relativa somente à espécie humana.

Recuperamos aquilo que o capitalismo rejeita procurando evitar o sistema econômico a que ele nos obriga com suas regras de mercado.

Utilizamos também pratos de cerâmica na perspectiva de um menos desperdício, mesmo conscientes de que não seja essa a solução necessária para o aniquilamento do sistema dominante. Procuramos através da prática ‘lave o seu prato’ incentivar as pessoas a rejeitarem a delegação de funções e promover a autogestão... mesmo das pequenas coisas!”

Sinceramente, quase chorei de remorso. Pobre do porquinho que deu sua vida para o prazer banal que senti ao comer sua deliciosa carne a poucas horas. Vacas do mundo, existe uma esperança para vocês!

Mas aí algo me veio na mente. Alguns dos pratos eram bolo de soja, berinjela com trigo, pasta de milho com não sei o quê e salada, muita salada. Visto que estamos na Itália, imagino que a soja seja uma grande doação dos bravos agricultores brasileiros que a cada dia expandem suas belas fazendas do centro-oeste para a floresta Amazônica, sempre com sementes e “fertilizantes” da melhor qualidade fornecidos pela Monsanto. Segundo o Wikipédia, os maiores produtores de trigo do mundo são os Estados Unidos, então devemos agradecer aos bravos norte-americanos e suas melhores indústrias de biotecnologia pela qualidade do trigo da nossa janta VEGAN. Qual a minha surpresa ao saber que quem produz mais milho no mundo é também os Estados Unidos, então, mais uma vez “grazie” aos nossos irmãos do norte por mais esse produto indispensável.

Tudo bem, esse raciocínio pode ter várias falhas, mas serviu para me convencer de que não preciso abandonar meu churrasquinho. Já mais tranqüilo comprei uma lata de cerveja de uma multinacional qualquer, acendi um cigarro da Philip Morris que pedi para um dos companheiros de festa, e pude me divertir valendo com as bandas da noite.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

O individualista

A linguagem é a fantasia mais perfeita e traiçoeira da humanidade. Qual será o segredo que se esconde por traz do paradoxo que nos comunicamos e ao mesmo tempo não entendemos nada do que se diz? Quanto de exercício mental será necessário para estabelecer as bases de um uso racional da linguagem humana?

Se Frege, Russell, Wittgenstein e todos seus seguidores não chegam jamais a uma resposta coerente, quem sou eu para me aproximar de uma solução. No máximo posso pôr mais dúvidas e, com muito esforço, propor algumas questões concretas. Ainda, se a filosofia lógica analítica não chega a um consenso, o que dizer da metafísica e sua eterna tentativa de definir o sistema de conhecimento.... enfim, vivemos num mundo de suposições e parece que esse é o máximo que podemos fazer. Porém, também parece que algumas coisas podem ser pensadas fazendo uso de nossa racionalidade limitada.

“Eu gostaria que as pessoas pensassem mais em si mesmas. Não sou exigente a ponto de querer que todos sejam altruístas, que pensem no bem comum, mas que sejam individualistas e consigam ver o mal que algumas políticas fazem para eles próprios na hora de votar”.

Falávamos sobre política; direita, esquerda, centro e o nulo absoluto. Quando o discurso chegou no ponto acima citado, me dei conta de como “individualismo” pode ser interpretado de tantas formas. “Que se foda o mundo, eu só penso em mim”. E agora: qual a conseqüência disso? O que quer dizer pensar só em si? A que nível de ações concretas porta esse pensamento?

Posso partir do pressuposto que a finalidade seja a felicidade, ou atingir um objetivo qualquer que no fim portaria à felicidade individual. Nessa caso, quando alguém diz pensar só em si pode significar que busca um caminho mais rápido possível para essa finalidade estabelecida, que lhe portaria a felicidade ou realização na vida. No mundo de hoje, isso pode ser entendido como o caminho mais fácil para acumular dinheiro e bens, ou seja, riqueza material. Se diz que o individualista é aquele que não tem escrúpulos para alcançar esse objetivo. Não se preocupa que para isso outras pessoas tenham que ser sacrificadas e lançadas fora do jogo, afinal somente alguns podem ser os vencedores quando a vida é um jogo, e para o individualista o vencedor tem que ser ele mesmo.

Suponhamos que o nosso individualista tenha sucesso na sua carreira, que consiga acumular e aos poucos adquirir os confortos com os quais sempre sonhou: uma grande casa, um grande carro, uma mulher magra, uma gorda conta no banco. Nesse momento ele passou para um outro nível. O problema é que aqui ele vai ver que existem outras pessoas que estão na sua frente no jogo e não se dará por satisfeito até que tenha mais que eles. Começa tudo de novo e ele conquista uma casa maior, um carro maior, uma mulher mais magra (e mais jovem), uma conta brutalmente obesa no banco. E assim ele muda mais uma vez de nível e aqui ele vai ver que....

Bem, é um extremo, mas serve para a teoria em geral. A um certo ponto o nosso individualista começa a se preocupar em não perder o que conquistou com tanto esforço. Ele é rico e por isso vota na direita. Por costume e pelas promessas de menos impostos, menos direitos para os trabalhadores, salários mais baixos, enfim, tudo para sua economia pessoal e individual. Como ele é rico, joga na bolsa de valores, quer um mercado aberto e sem as amarras do governo, afinal, o capitalismo é a sua própria ferramenta de regulação.

Nosso amigo a esse ponto é um homem refém do medo. Medo de que se desvalorizem suas ações; medo de que lhe roubem o carro ou que invadam sua casa; medo de que seu banco vá a falência; medo de andar na rua porque podem saber que ele é rico e o seqüestrem; medo de ter amigos, porque eles podem apenas ser outros individualistas do jogo que querem apenas se aproveitar da sua fortuna. Assim nosso individualista foi tão individual que o que era para ser sua felicidade virou sua prisão.

Aqui voltamos ao que dizia meu interlocutor e em como o individualismo mal interpretado pode ser voltar contra o próprio individualista. Digamos que o que ele queria era um individualista consciente, ou racional. Um individualista que pense na sua própria felicidade e que saiba o quanto é importante para isso que o mundo funcione dentro de um certo padrão que seja, mais ou menos, bom para todos.

“O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar”, disse Raul Seixas, o que também é um extremo, mas ajuda a entender a outra forma de individualismo proposta. Se o fim é alguma forma de felicidade, como posso ser feliz sem que no meio exista a felicidade? Como posso ser feliz em meio ao sofrimento alheio? Nosso individualista continua a pensar só em si, que se foda o que os outros fazem da sua vida, como vivem. Nosso individualista racional continua querendo acumular bens e todo o resto, mas sabe que para isso a sociedade em geral deve estar estabilizada; sabe que quanto mais ganham os empregados, mais faturam os patrões; sabe que se qualquer um pode buscar sua própria felicidade individual ninguém vai querer roubar seu carro ou sua casa. No fim nosso individualista se libertou da inveja, porque ele é um verdadeiro individualista e poderá se dar conta da felicidade que um dia alcançou ou pode alcançar sem se preocupar com os outros.

Mais um retorno. A linguagem agora revela seu enigma. A mesma palavra pode levar a interpretações tão opostas que mudam totalmente a vida de uma pessoa e, porque não, de toda uma sociedade. Uma palavra, e apenas alguns minutos de raciocínio sobre ela. O mundo não mudou, mas é diferente. A língua não mudou, mas é diferente. O homem não mudou, mas é diferente. Quem explica isso?

domingo, dezembro 12, 2010

Festa contra o governo

O sistema de protesto é a ocupação. Não que resolva alguma coisa; não muda nada; mas são dias divertidos para os filhos de uma Itália que um dia foi rica. Em Bologna o prédio da Faculdade de Filosofia está ocupado. “38 Bloccato” diz uma faixa logo na entrada. Não que isso mude muito a rotina; não muda nada; as lições sobre Platão, Wittgenstein e toda a turma continuam enquanto alguns verdadeiros anarquistas acampam em uma das salas de aula.

Como não poderia deixar de ser, as manifestações desembocam em festas estrondosas para que a juventude deixe seus euros pela causa e por uma noite de embriaguês contra o governo. Sábado o motivo era mais que justo para convidar toda a comunidade acadêmica ao 38 da via Zamboni: recolher fundos para que os anarquistas de verdade viagem à Roma na quarta-feira, onde encontrarão outros anarquistas de verdade e com certeza vão derrubar o premier Berlusconi.

Eu, claro, não poderia não participar de um momento desses. Cheiro de revolução na Faculdade de Filosofia da universidade mais antiga do ocidente. Dá pra ver nos olhos dos jovens que eles se sentem parte da própria história da humanidade, ainda mais com um copo de vinho na mão e uma boa quantidade de haxixe na cabeça. É um pouco difícil entrar e passar pelo corredor principal. Os estudantes atenderam ao chamado dos revolucionários e estão trocando todas suas notas por cervejas de 1,50 e vinhos de 2 euros. Tudo isso embalado pelo The Clash, “London Calling”. Depois Ramones, depois Dead Kennedys, G.B.H, Toy Dolls, e eu já vejo as bombas caindo sobre a sede do governo, os engravatados saindo em chamas pela rua e morrendo espancados pelos paus que seguram as bandeiras vermelhas e negras..... UFA!

Ainda bem que o DJ percebeu o clima que se criava e mandou um Reggae. Assim podemos dar mais uma circulada pelo ambiente. No segundo andar da faculdade uma banca vende pedaços de bolo e sanduíches, cervejas e vinhos. Aqui o pessoal está um pouco mais calmo. Parece ser esse o centro intelectual do movimento. Pequenos grupos discutem entre goles de Birra Moretti e vinho Sangiovese. Na sala 3, uma daquelas salas de filme, tipo auditório, acontecem os concertos, que segundo o programa vão de Jazz a Folk. Entramos na sala e um clima grave toma parte da platéia. Sobre o palco um trovador solitário faz o papel de Bob Dylan, com cabelos embaraçados e canções tristes cantadas em um inglês que ninguém consegue entender o significado. Mas são belas canções e a platéia presta atenção e o clima de revolução volta a tomar conta, dessa vez com flores, cartazes, protestos silenciosos e greves de fome que durarão até que a classe dominante perceba o quanto é irracional seu sistema e desista de oprimir o povo. Já vejo uma multidão em frente à sede de governo, Berlusconi abre a porta, diz que não será mais o presidente, que se arrepende de todos seus erros, a multidão abre espaço e depois toma o poder para uma nova era de paz e amor.....UFA!

Até que o amigo alemão me cutuca: “mas que grande merda isso aqui! Essa música está um saco!”. Sim, é verdade. E na verdade o pessoal só finge prestar atenção e finge ser revolucionário e finge ser intelectual. “Mas eles são intelectuais, estão curtindo a música”, disse eu numa última tentativa de acreditar. “Tudo bem, mas até os intelectuais precisam de um pouco de festa”. OK, é tudo mentira mesmo, vamos para o vinho e a dança nos corredores da faculdade aproveitar enquanto o governo não cai e ainda temos motivos para festas e protestos.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Canned Heat - "Boogie With Canned Heat"


Boogie. Pesado. Alguém, por acaso, sabe o peso do blues? Para alguns é tão suave que “fly away” sem incomodar ninguém. Para outros é tão pesado que transforma um coração de pedra em pura gelatina. Para mim, ele seguramente tem os mais de 100 quilos de Bob “The Bear” Hite, vocalista e idealizador do Canned Heat, uma das grandes bandas de blues americanas do fim dos anos `60 e início dos `70.

Que me perdoe o professor que disse que em matéria de Blues só vale o que é “negro e dos Estados Unidos”. Se bem que metade da lição vale para esses rapazes da Califórnia, porém são todos brancos. Para quem ainda não sabe quem são, essa é a famosa banda do gordinho do Woodstock, e o gordinho é justamente “The Bear”.

A especialidade da turma é o boogie woogie. Não à toa que o disco principal, e que resume melhor a ópera da banda é “Boogie with Canned Heat”, de 1968, que justamente lhes valeu o convite para a apresentação no antológico festival citado acima. Com essa obra, eles se consolidaram como uma das principais referências do dito “novo blues”, o ressurgimento que teve o estilo no final dos anos `60 através dos rapazes brancos que buscavam algum tipo de raiz nos velhos blues negros do Delta e de Chicago, não só dos EUA, como também da Inglaterra, vide a tropa formada por Animals, Eric Clapton, Rolling Stones, John Mayall. Na real, em termos históricos, podemos dizer que o Canned Heat faz parte da reação americana aos britânicos que se meteram a fazer Blues e apavoraram com o Rock`n`Roll na metade dos `60.

O disco em questão é o segundo da banda e contém algumas pérolas como “An Owl Song”, onde Bear canta com uma vozinha suave que ao imaginar sua figura dá pra se mijar de rir, “On the Road Again”, talvez uma das músicas que ficaram famosas mundialmente, e “Whiskey Headed Woman, no. 2”, que abre o disco em grande estilo e dá a letra do que vem na sequência. Resumindo, esse é um daqueles discos pra botar na vitrola e esquecer do tempo, deixar a mente viajar por um ritmo constante que liga uma música noutra como uma verdadeira obra completa. Enfim, um disco de ouvir do início ao fim.

De `67 até `71 o Canned Heat viveu seu auge como banda. Logo após gravar outro disco clássico “Hooker`n Heat”, disco duplo com ninguém menos que John Lee Hooker, morre o guitarrista e co-fundador da banda Alan Wilson. A banda mantém seu estilo apegado no Roots Blues e segue aos trancos e barrancos nos anos `70, chegando a se separar por breves períodos. Nessa época eles sobreviveram, como muitas bandas, pelo suporte dos motociclistas, uma típica banda Hell Angel. O golpe mais duro, porém, viria em 1981, quando The Bear morre por causa de uma overdose de heroína.

O Canned Heat segue até hoje fazendo shows e gravando discos, mas nunca mais alcançou o auge de quando eram "os gordinhos do Woodstock". Essa é a boa dica para o fim de semana, junto com uma garrafa de vinho, um bom baseado e, claro, a nêga véia para um chamego.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

O palhaço

A vida é simples, ou pelo menos deveria ser. Simples como a alegria por um dia de sol depois de duas semanas cinzas e vividas e meio a blusões de lã, meias duplas, ceroulas e todas as jaquetas possíveis. Só uma “nesga” de sol entre os prédios, e as pessoas se acumulam em escadarias centenárias no meio da tarde para simplesmente fazer nada. Um meio sorriso de satisfação brota ao sentir os ossos um pouco mais quentes. Partes do corpo que pareciam mortas ressurgem, células voltam ao seu metabolismo e a vida aos poucos fica mais colorida. Parecemos loucos encostados na parede de um castelo tentando acompanhar o movimento do céu. As imagens da cidade começam a ganhar forma, os olhos vagam pela praça e a falta de sentido cotidiana.

Um outro grupo surge à vista. Parece mentira, mas não é. A terra de Fellini proporciona dessas coisas mesmo longe dos cinemas. Um palhaço sobe numa banqueta e prepara seu discurso. Na platéia jovens estudantes, desocupados, alguém que aproveita seu caminho para ouvir alguma boa piada, aposentados. O sorriso eterno de uma face maquiada não esconde as marcas do tempo e de uma vida sem graça.

“Nós estamos presos a esse mundo. Quem de vocês sabe alguma coisa sobre liberdade? Eu fui caçado de praças como essa. Eu vi o mundo mudar e não se transformar em coisa alguma. Eu sou a dor e o alívio da dor. Eu queria vender sorrisos e me denunciaram como subversivo. Eu gostaria de viajar, mas me disseram que não tinha dinheiro. Eu fui com meus próprios pés e quase morri. Ninguém quis saber de mim, e aqui estou. Vocês discutem o que existe de errado e eu lhes digo a verdade. Tudo está errado. Nada está errado. Eu sei, é difícil admitir. Nossa alma está fora da realidade, da razão. Não precisamos mudar nada que esteja fora dos nossos olhos. As coisas continuarão a existir. As pessoas continuarão a passar. Eu vi e lhes digo. Eu não quero ser normal. O normal fez seu irmão sofrer. Eu não quero ser normal. O normal virou a face a seu irmão. Eu me pinto um sorriso mal feito todas as manhãs para mostrar e que escondo. Eu nunca produzi nada. Eu nunca fiz nada. Eu tenho a verdade e quem quiser que corra por ela. Vocês nunca vão alcançá-la. Ela só pode ser brevemente vislumbrada por quem tem olhos especiais. Ela não está aqui. Não está em nenhum lugar. A verdade é a verdade que se esconde sempre atrás de nós mesmos. Eu ganhei meus olhos com a vida. Quem se julga sábio o suficiente que procure o mesmo. Fim.”

E então acabou o sol. A platéia se desfez em direção às casas bem aquecidas, aos ônibus, aos bancos da universidade. O palhaço ainda ficou um pouco ali. Ninguém mais quis saber das suas verdades. Ele sorriu por detrás da máscara, abriu seu guarda-chuva e começou a dançar rumo aos seu destino, distribuindo balões para as crianças.

Por um momento não me interessei mais por livros, filmes, ou qualquer outra coisa que tinha em mente. Queria ser um palhaço. Queria contar histórias e conhecer o truque de brincar com a verdade. Senti qualquer coisa no olho. Talvez uma fumaça do cigarro, talvez um raio perdido de sol... ou talvez apenas alguma coisa que nunca tenha sentido antes de sair para a rua e ter parado para ouvir um palhaço.

Casa e vinho

A pobreza transforma as unidades de medida de um ser humano. Eu, por exemplo, depois de ter me tornado um pobre, vejo o mundo como litros de vinho e aluguéis que poderia pagar. Porque essas são as necessidades básicas de um pobre: casa e vinho. É quase uma versão moderna e alcoólica de pão e circo, talvez sob forte influência de Roma, que está a menos de quatro horas daqui.

Um amigo outro dia comprou uma bicicleta. 40 pila. Por incrível que pareça, uma bicicleta representa hoje 26,666666.... litros de vinho. O que por sua vez representa 13 noites de embriaguês pelas ruas de Bologna. Uma boa quantidade de “festas” para um mês. Ou seja, uma bicicleta se afigura para a mente de um pobre como um desperdício plenamente calculável. Tudo bem, uma bicicleta dura o tempo que eu quiser. Mas quem me restituiria as noites que poderia passar bêbado em meio à massa de gente rica que caminha em busca de diversões mais caras? Afinal, eu sou exigente, e preciso da sensação de pertencimento a uma estrutura social que nos ensinou a importância de pertencer a uma estrutura. Nem que seja a estrutura dos bêbados que vagam pelas ruas à noite, sem rumo, sem esperanças de fazer qualquer coisa que não seja estar bêbado e olhar outros bêbados que entram e saem dos bares quentes onde não posso comprar uma bebida. Me consola o vinho em uma garrafa plástica que custa 1,50 no supermercado.

Outro dia olhei uma vitrine de uma loja que nem era tão importante assim, quase de periferia. Ali, como um troféu inalcançável brilhava uma jaqueta de alguma matéria derivada do petróleo, iluminada por spots e néons, inflada como uma roupa de astronauta da NASA. Tinha preço, que era exibido para mostrar o quanto valia aquele troféu: 1.250 pila. No meu mundo de pobre isso representa 2,5 aluguéis, ou seja, a garantia de ter um teto sobre a cabeça por dois meses e meio. Só me resta rir, porque certamente existe quem paga para se vestir como um astronauta em plena terra e brilhar pelas ruas com o produto da merda dos dinossauros.

Se não bastasse a própria irracionalidade dos exemplos em si, existe ainda uma outra, muito mais profunda, na comparação entre eles. Sem dúvida uma bicicleta é muito mais útil do que uma jaqueta de astronauta, e mesmo assim, custa só 26,666666... litros de vinho comparados com os dois meses e meio de aluguel. Isso no coração do mundo ocidental, terra dos iluministas, onde se diz que se desenvolveu a razão do homem.

Sim, louco sou eu, que comparo tudo com vinho e casa. Aliás, estou de saída. Vou tomar um vinho que custa 2,50 o copo, só para me sentir um pouco melhor e não pensar que estou louco. Vou me sentar no restaurante, dar boas risadas, comer uma massa e voltar pra casa com a sensação do dever cumprido. Mas peço aos meus amigos só um favor: nunca me deixem andar de bicicleta por aí com uma jaqueta de astronauta.

sábado, junho 21, 2008

Sempre boas notícias

Como estou a quilômetros de distâncio do Rio Grande, só consigo acompanhar as notícias do estado pela internet. E nada melhor para ficar por dentro dos acontecimentos do que ler a página da Zero Hora.
Pelo jeito as coisas vão bem por aí. A Governadora pode voltar a trabalhar tranqüila, já que o pedido de impeachment, formalizado pelo Pessoal, "não atendia aos requisitos formais". É o que eu sempre digo, esses comunistas precisam voltar para a escola, ou quem sabe fazer um cursinho rápido de Direito constitucional. Perderam a chance de derrubar a governadora por desconhecer os "requisitos formais". O velho Marx deve estar de cara com seus seguidores.
Outra boa notícia é que a cobertura eleitoral do jornal da firma tem tudo para ser um sucesso. Das passarelas. Talvez algo tão bom quanto a cobertura da São Paulo Fashion Week. As modelos já estão quase todas prontas. Digo isso porque estou acordado sábado de manhã e vejo a notícia: "Luciana Genro adota novo visual". Eu sempre achei que ela andava meio caidinha. Também, não vai ser fácil competir com a "top model" Manuela....
Pena que na matéria se esqueceram de perguntar para a Luciana se ela sabe quais são os "requisitos formais" de um pedido de impeachment. Quem sabe ela não poderia dar uma ajuda para a companheirada.

segunda-feira, junho 09, 2008

Os postes e os cachorros

Como vocês sabem, aqui estou longe das coisas do Rio Grande. Mas hoje, ao abrir o jornal da cidade me deparei com a estampa da Dona Yeda, nossa ilustre governadora. O texto trazia toda a repercussão das demissões de secretários e comando da Brigada.
Eu até fiquei intrigado com o caso do Busatto. Imagina, um cara que conseguiu sobreviver após o governo Britto, com toda a falcatrua que fizeram, até que demorou para sair do jogo político.
Mas o que mais me intrigou foi o seguinte trecho:

“Em entrevista coletiva, Yeda se mostrou indignada por Feijó ter gravado e divulgado a conversa com Busatto sem avisá-lo. ‘A fala gravada não tem valor ético ou moral quando um sabe que está gravando e outro não sabe que está sendo gravado’, afirmou a tucana.”

Fico me perguntando: a quem ela se referia quando disse “a fala gravada não tem valor ético ou moral”? Claro que ela estava criticando o vice-governador, por ter gravado a conversa sem autorização.
Mas aí me pergunto novamente: em que mundo estamos? O cara admitir que usa dinheiro de órgãos públicos para se eleger, inclusive um que está no centro de uma investigação em que já foi comprovado o desvio de 43milhões de reais; isso não é o problema. Quem agiu mal foi o cara que descobriu a falcatrua e gravou a conversa.
Eu vivo dizendo e repito mais uma vez: está perto o dia em que os postes vão mijar nos cachorros.

sexta-feira, junho 06, 2008

O bom e velho anarquista

1988, o Brasil se preparava para votar pela primeira vez após a ditadura. Raul Seixas e Marcelo Nova faziam uma turnê nacional com o propósito de “levar um pouco do bom e velho Rock’n’Roll para as pessoas”. Existe ainda a gravação de um show que eles fizeram em Itajaí, Santa Catarina. Eis que antes de subirem ao palco os astros se dispõem a dar uma entrevista. Lembrem-se, o País todo está em clima de eleições e Raul Seixas completamente bêbado e debilitado.

Repórter: O que você está achando de participar da turnê com Marcelo Nova e a banda Envergadura Moral?
Raulzito: Ta ótimo. Estou ensaiando minha banda para o show do ano e espero que esteja tudo pronto após o lançamento de prefeitos no Brasil. (a eleição era pra presidente, Raul tirando onda).
Repórter: Você está apoiando algum candidato?
Raulzito: Não, não. Eu não voto. Eu sou anarquista.
Repórter: O que você está achando da política brasileira?
Raulzito: Eu to achando uma merda.
Repórter: Então você não votaria em ninguém?
Raulzito: Não.

Bela entrevista. São dois os objetivos dessa transcrição:

1. Pense em Raul Seixas quando estiver em frente à urna nas próximas eleições e grite um sonoro FODA-SE a todos os políticos. Depois vote nulo!!!

2. Estou me gabando de ter toda a coleção de DVDs do Raul Rock Club aqui em casa. São 11 discos no total.

terça-feira, junho 03, 2008

Óia os comuna!

A história será sempre objeto de seres especiais. A grande massa humana contenta-se em viver. Como Michel Onfray, por exemplo, conseguiu escrever seu livro Contra-história da filosofia? Ele com certeza não revelou pensamentos médios de outras épocas, não fez emergir o discurso do homem comum. Ele fez algo igualmente importante, porém diferente: deu voz a pessoas especiais que foram propositadamente caladas, justamente pela importância de suas palavras.
Mas e o povão, como era? Provavelmente igual ao de hoje: mais preocupado em viver do que qualquer outra coisa. Não pensemos, porém, que aí não existe nenhum tipo de pensamento ou filosofia. Uma filosofia, na sua maior parte, voltada para a existência. Mas não podemos negar também a existência de momentos de extrapolação. (Não é à toa que a maioria da população do mundo usa algum tipo de substância para alterar seu nível de realidade).
Estou falando do tipo clássico de cidadão que acorda todos os dias para trabalhar ou fazer uma função qualquer. Almoça sempre nos mesmos lugares, com algumas variações durante o mês. Mora sozinho, com os amigos, ou é recém casado. Talvez um filho ou dois. Chega em casa e algumas vezes toma uma cerveja e outras fuma um baseado. Geralmente fica de papo com quem está perto.
É justamente dessa conversa que vem a filosofia da massa. A conversa com o pessoal da firma, com a família, com os amigos, com os irmãos, com a mulher, com as crianças e com os desconhecidos. Disso se tira a filosofia do homem comum, aquela que não aparece em nenhum livro de história, pois parece que estão sempre querendo fazer um confronto de idéias.
Imaginem que papel bárbaro teria uma vertente do jornalismo que fizesse vir à tona o que diz o povo ao invés de defender uma ou outra idéia. Seria a documentação da filosofia do homem comum. Talvez algo como uma conversa que gira em torno dos fatos. Aquilo que comprova que apesar das mesmas informações, cada pessoa racionaliza de forma diferente.

Na verdade isso que está escrito aí em cima não tem nada a ver. O negócio é que vale a pena ler a revista Veja dessa semana e descobrir que ainda tem gente esbravejando contra os comunistas. Guerra Fria total. Acho que é o chamado “Efeito Indiana Jones”:

“Os comunistas estão no governo da maioria dos países latino-americanos. O que você faria para sair dessa?”.

quarta-feira, maio 28, 2008

Costume

Andei pensando sobre o texto abaixo. Que interesse teria a Rede Globo em desmoralizar os índios para permitir a construção de uma hidrelétrica no meio da Amazônia?
Em primeiro lugar, cabe salientar que, mesmo após um acurado exame de consciência, ainda acho que não exagerei na crítica. De fato a “reportagem” demonstra claramente de que lado a emissora está. Então, segue a pergunta: qual o motivo?
Literalmente quebrei a cuca e não consegui descobrir nada. E olha de tenho uma mente afeita a teorias da conspiração. Não só isso. Tenho amigos que são verdadeiros experts em achar interesses obscuros nas maquinações da mídia. No entanto, nada; nem uma pista sequer.
Até que me caiu a ficha: costume!
Sim, eles fizeram isso pelo puro e simples costume de ficar contra as intenções de quem não representa o poder, qualquer poder. Dá ate para imaginar as conversas dentro da redação.
“Esses índios estão contra o progresso”.
“Olha só quanta energia podia ser gerada”.
“Quantas indústrias poderiam ser abastecidas por essa hidrelétrica”.
E pensar nos milhares de hectares de floresta nativa alagados.... “não, isso não faz diferença. Um pouquinho de mata a menos... tem tanta pó aí”. E os índios? “Esses selvagens, por que não se integram e aproveitam os benefícios da civilização? Garanto que nem luz eles têm e ainda estão reclamando”...
Seus cérebros pré-fabricados não conseguem vislumbrar a dimensão do problema. A questão não é a meia dúzia de índios que ficarão sem sua terra; é o povo brasileiro que é bombardeado pela ideologia de meia dúzia de “jornalistas”.

segunda-feira, maio 26, 2008

O milagre da edição

Poucas vezes paro em frente à televisão. Por dois motivos: creio que representa uma degradação do gosto, um tempo perdido em algo que não acrescenta absolutamente nada; e, uma vez que ligo o aparelho, não consigo desligá-lo. Sim, fico completamente vidrado nas imagens que bombardeiam minha retina. Por isso, sempre me esforço para não cair em tentação. Ligo o rádio, pego um livro, o violão, vou dar uma banda, qualquer coisa.
Mas eis que domingo, naquele clima de ressaca sem cura, após uma farta janta com os amigos, resolvi assistir uma telinha. Como não temos TV a cabo, o que sobrou? O Fantástico. Tudo bem, vamos lá, fazia já um bom tempo que não assistia a esse programa, e afinal de contas só estou querendo zerar o meu cérebro mesmo.
Por acaso pegamos bem no começo da parte do esporte, que sempre é a melhor parte, apesar do Colorado ter perdido no fim de semana. O carequinha aquele que apresenta consegue mesmo ser engraçado e a equipe de editores trabalha muito bem na seleção de imagens da rodada. Depois de uns esquetes teatrais ridículos vem a parte que deveria ser interessante, a das reportagens.
Primeiro, uma matéria sobre um pó mágico dos Estados Unidos que regenera partes amputadas do corpo. Interessante. Depois, uma reportagem investigativa sobre os garimpeiros de Serra Pelada, que ainda acreditam ter ouro no local e se matam por isso. Também interessante, não fosse o preconceito no tratamento ao MST, mas tudo bem, quanto a isso já estamos acostumados.
Como podemos perceber o programa vinha bem, não apresentando nada que abalasse a estrutura mental de seus telespectadores. Isso até chegar a parte do conflito entre índios e governo por conta da construção de hidrelétricas no Pará.
Na introdução do tema já podemos notar o viés da reportagem. Algo como “esta será uma das maiores hidrelétricas do País, que beneficiará todo o povo brasileiro...”. A seguir vem a entrevista com os índios. Uma câmera imóvel, com o líder deles à frente empunhando um facão, e outros índios e índias duros como pedra no plano de fundo. Se ele não estivesse usando um cocar e as pinturas de guerra da tribo, eu teria certeza de que se tratava de um vídeo da Al Quaeda. Isso entremeado de imagens dele comprando facões numa loja da cidade. Neste ponto me perguntei: “ora, se eles têm facões só podem ter comprado em algum lugar, afinal eles não brotam da terra”. O repórter, tentando mostrar o quanto eles são maus ainda pergunta: “vocês compraram os facões?”. O índio chega a ficar desconcertado com a pergunta. “Claro que compramos, fui eu mesmo lá e escolhi os que eu achava melhores”. Arrumaram até uma brecha na lei para a possível condenação dos índios envolvidos na agressão ao engenheiro da Eletrobrás: “segundo a lei, um índio acostumado ao convívio com os brancos pode ser indiciado pela Justiça”.
Depois dessa criminalização eles pensaram: “agora vamos falar com o engenheiro ferido no protesto para acabar de vez com a reputação dos índios e colocar todo mundo a favor da hidrelétrica”. Só que eles não contavam que o engenheirão era um baita gente fina. A entrevista à apresentadora do Fantástico foi no Rio de Janeiro, no salão de reuniões da Eletrobrás, com uma câmera para cada um e mais uma de apoio. Primeiro ela perguntou como aconteceu a agressão. Enquanto ele contava apareciam imagens da confusão. Mas aí veio o problema. Quando eles imaginaram que chegariam ao auge, após à pergunta: “o que você quer que aconteça com os índios que lhe feriram?”, o engenheiro me sai com essa: “eu não quero que aconteça nada. Eles estão no direito deles”. Acabou com a repórter. A partir daí a entrevista vira uma série de cortes, perfeitamente visíveis pelo telespectador, até que eles conseguem pescar uma parte que é mais ou menos assim: “a Justiça tem que fazer o que a lei manda”, que eu não duvido que fosse referente a outro assunto que não a agressão.
Pois é, meus amigos, a gente até tenta não ter preconceito com relação a esse tipo de “jornalistas”, mas não dá. Uma hora ou outra os caras saem da moita e nos apresentam alguma coisa assim. É por isso que temos que ficar sempre atentos e como uma Al Quaeda de verdade ir desmascarando esses caras.

terça-feira, maio 20, 2008

Política e leitura

Pois é, meus amigos, a correria anda tanta que mal tenho tempo de olhar o computador, trabalhar então..... Mas para os que andam preocupados, está tudo dentro da normalidade: churrasco, engradados de cerveja, festa no underground, sempre no melhor estilo "peace on earth, sex, drugs and Rock'n' "fucking" Roll".
Mas agora, falando sério, tenho lido algumas coisas interessantes. Como eu sei que todos os governantes do País olham esse blog, vou dar aqui uma dica básica. Lembram-se daquela aula de Literatura Brasileira, com aquela professora que era um doce, e que vocês achavam que a melhor coisa do mundo era passar a perna nela? Pois é, vocês deviam ter lido pelo menos um livro; e aqui vai o nome de um que ela mandou que faria toda a diferença na sua vida como homens públicos: Os Sertões, de Euclides da Cunha.
Nem precisavam ir tão longe e ler todo o livro. Só a primeira parte, chamada "A terra", já bastava. No capítulo V temos dois sub-títulos importantíssimos: "Como se faz um deserto" e "Como se extingue o deserto". Apesar do equívoco na referência aos índios "Euclidão" coloca algo importante sobre a criação do clima árido dos sertões:

"Ainda em meados deste século, no atestar de velhos habitantes das povoações ribeirinhas do São Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente, alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos vui-se no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.
Imaginem-se os resultados de semelhante processo aplicado, sem variantes, no decorrer de séculos....
Previu-os o próprio governo colonial. Desde 1713 sucessivos decretos visaram opor-lhes paradeiros. E ao terminar a seca lendária de 1791-1792, a grande seca, como dizem ainda os velhos sertanejos, que sacrificou todo o norte, da Bahia ao Ceará, o governo da metrópole figura-se tê-la atribuído aos inconvenientes apontados, estabelecendo desde logo, como corretivo único, severa proibição ao corte das florestas."

Podemos ver que o dinheiro sempre falou mais alto que o bom senso nesse pobre País. O que há mais de dois séculos verificou-se no sertão, hoje vemos repetido na Amazônia, com exatamente as mesmas características, inclusive com a criação de gado como fator de degradação ambiental, também já apontada por Euclides da Cunha
Sobre "Como se extingue um deserto", o autor nos coloca o exemplo do Império Romano, que na Tunísia acabou com a seca das suas planícies por um sistema de barragens e cisternas. Observaram que, assim como no sertão brasileiro, de nada adiantavam as chuvas que lá caíam, pois corriam direto para o mar e acabavam por se transformar em mais um ingrediente de devastação do solo. Com o sistema implantado, aquele país transformou-se no "celeiro de Roma". Nada de transposição do Rio São Francisco, só um pouco de inteligência e bom senso. E, é claro, um pouquinho de leitura.

O dia em que salvei o Rock'n'Roll

Sexta-feira saí do trabalho por volta das 22 horas (o popular 10 da noite, como diria minha amiga Cati Carpes), totalmente sem destino. Só sabia de uma coisa: queria beber e curtir um Rock’n’Roll.
Até agora descobri que Joinville tem três bares de Rock. Como eu estava com o espírito de porco à flor da pele, optei pelo mais underground deles, o Old Bar. Mas antes de entrar num ambiente escuro e enfumaçado para encher os cornos de cerveja precisava comer alguma coisa. Eis que esta bela cidade oferece uma ótima alternativa para os boêmios classe C: xis a R$1,25. Claro que não é uma maravilha de comida, mas o objetivo era só tapar o buraco da úlcera mesmo.
Depois da farta janta, achei melhor começar os trabalhos no boteco. Afinal, nunca se sabe o preço que teremos que pagar nesses bares. Encostei a bicicleta na mureta que dá para a rua e mandei baixar uma gelada, “bem gelada, por favor”.
Saciada a primeira parte da sede parti em busca de um lugar para deixar a “zica” (é como eles chamam a bicicleta aqui). No posto de gasolina sequer olharam na minha cara. A sorte foi achar um estacionamento com um carioca gente boa que colocou meu meio de transporte na sua sala.
Tudo pronto e ajustado, comprei mais uma latinha e fui para frente do bar. Eis que lá chegando, me deparo com a dona do estabelecimento, mais os seguranças e funcionários da casa, olhando apavorados para um brigadiano que folheava uma pasta cheia de documentos.
“Esse alvará está vencido, a vigilância sanitária precisa fazer uma nova inspeção, não tem aqui autorização para música ao vivo”, etc., etc., etc., e a mulher cada vez mais desesperada. “Mas o senhor tem que entender que a burocracia é lenta, como pode ver já está tudo encaminhado”. E ele nada, impassível, explicando que teria que chamar o fiscal da prefeitura para fechar a casa. Não me controlei e resolvi fazer parte da conversa.
- Com licença senhor, qual é o problema aqui?
- O bar está com os alvarás vencidos.
- Bem, mas o senhor já viu que está tudo encaminhado, e é difícil acreditar que todos esses papéis - realmente tinha uma pilha deles - não sirvam para nada.
- Na verdade o problema maior nem é esse, é o barulho que esse pessoal que fica aqui na frente faz. Aliás, quem é o senhor?
- Sou só um cidadão, cliente do estabelecimento.
Ele me olhou e decidiu continuar contando que teria que fechar o bar, chamar o fiscal e só se ele fosse muito camarada deixaria o bar funcionar essa noite. “Puta que o pariu!”, pensei, “só porque eu quero curtir um Rock’n’Roll! Não admito que justo hoje vão fechar a bodega”.
- Com licença meu amigo, se o senhor me permite uma palavra.
- Sim.
- Na minha opinião, se o problema maior é na rua, a responsabilidade é do poder público. Quanto à situação do estabelecimento nós já vimos que está sendo resolvida, só emperra na complicação da burocracia.
- Sim, mas o bar é a causa dessa aglomeração de gente aqui. Nós também já notificamos o posto ali da esquina.
- Bom, garanto que a proprietária do bar gostaria que estivessem todos lá dentro. Garanto para o senhor que ela também acha essa aglomeração ruim para seus negócios. Além disso, o posto está funcionando, e lá tem muito mais gente na rua do que aqui. Isso que, como o senhor mesmo disse, eles já foram notificados.
- É, pois é....
- Quem sabe a gente faz um acordo aqui: o senhor dispersa a aglomeração e os seguranças do bar se encarregam de não deixar se formar novamente. A proprietária do bar faz uma pressão para encaminhar os papéis e na próxima semana o senhor volta acompanhado dos fiscais para averiguar a situação. Até porque não vamos fazer o cidadão sair de casa a essa hora, quase meia noite.
- É, acho que é justo. Ficamos assim então: o bar fica aberto até as duas da manhã, a senhora encaminha os papéis e o senhor (segurança) se responsabiliza em dispersar o pessoal.
- E quem estiver dentro do bar às 2?
- Quem estiver dentro pode ficar, só não entra mais ninguém.
Todos concordam com as exigências, mal segurando o riso em frente ao oficial da lei e da ordem. Quando ele sai, os músicos vêm me agradecer: “valeu aí cara, já estava pensando que a gente não ia tocar”. Eu não fiz nada de mais, só queria curtir uma noite de Rock. O pior é que quando pedi um desconto na entrada, a dona do bar se negou! Disse que tinha que pagar as bandas e tal....
Tudo bem. Fiz um monte de amigos lá dentro e voltei para casa com a certeza de que pelo menos uma vez na vida eu salvei o Rock’n’Roll.

sexta-feira, maio 16, 2008

Filosofia de um belo dia

A grande maravilha do mundo é seu paradoxo de ser resumível e complexo. É tão fácil dizer que a maioria dos dias são bons que prefiro taxá-los como ruins. O que é bom? O que é ruim? O que é suficientemente bom para que possa influenciar o julgamento de todo um dia, 24 horas das quais dormimos uma grande parte e não pensamos nos outros 90% do tempo? Quantos segundos de pensamento serão suficientes para tal julgamento? Meu bom é o seu horrível, e dele temos exatamente a mesma impressão, o que me transforma em uma pessoa completamente insensível a seu sofrimento por estar gozando plenamente de sua desgraça pessoal.
O sol, maldito astro que esquenta a face dos pobres mortais que são obrigados a caminhar sobre esta terra, é tão bom que se tornou fundamental para a vida. Maligno destino para esses pobres animais que se julgam tão independentes....
No momento tenho um gole de uísque (importado, de boa qualidade), uma carteira de cigarros pela metade (bom sinal), um disco do Iron Buterfly (que não coloco para não roubar minha atenção), uma varanda, um cinzeiro e uma tela na qual posso colocar estas letras; e tudo isso parece tudo o que preciso para dizer: esse foi um bom dia.
Que se foda a guerra, os mendigos, a miséria, a corrupção, os idiotas que infestam as ruas, a televisão, o teatro, os discursos, as idéias, o caminho do bem, o do mal, o câncer e a arritmia cardíaca.
Que se foda Plutão, Júpiter, março, abril e maio, o escorpião, a cobra, os anjos, o futebol, o grito preso na garganta, o palito de fósforo que se quebrou antes de queimar, a porta da rua, o gato, o cachorro e a zebra solitária na casa lotérica.
Que se foda a lamparina, a churrasqueira, meu amigo sentado ao lado, a planta que brota solitária vencendo a força do asfalto, a bossa nova, o violão desafinado, o grito do rebelde sem causa, a casa que todos gostariam de ter, o carro do ano, o jornal, o chefe, o empregado, a folha de pagamento, o caos, a bicicleta, o exercício, a paciência, o café, a panela, a comida e o sonho.
Egoísta? Claro que sim!
Frrrrr-ahhhhh!!! Que belo calor no esôfago!
Só uma coisa é certa: no futuro lerei este texto e então vou me lembrar de um belo dia.

quinta-feira, abril 24, 2008

Atualizando...

Depois de um tempo distante, considero-me na obrigação de atualizar os amigos leitores sobre o que anda acontecendo por aqui (no caso, Joinville).
Na verdade, nada muito interessante. Sofri como um louco ouvindo o Colorado pelo rádio.... meu Deus, vocês não imaginam o que é isso. Eu, que vou a todos os jogos do Beira Rio, preso quase na casa do inimigo, já que estamos a cento o poucos quilômetros de Curitiba, quase morri do coração. Ainda bem que deu tudo certo.
Algumas coisas bizarras aconteceram. Terremoto, por exemplo. Eu não senti nada, mas tem gente que jura que tremeu a terra por aqui. Foi capa de todos (os dois) jornais da cidade. Dando uma banda pela redação do jornal ANotícia descobri que a invenção é prática corrente da atividade jornalística. Estava conversando com o Editor Executivo enquanto ele procurava a matéria que tinha mandado para o Diário Catarinense. Achou, por fim, uma notinha na editoria de Geral. Foi olhar a hora da publicação: 22h 23min. “Que sacanas”, ele disse, “há essa hora eu nem sabia que tinha terremoto aqui”. Ou seja, simplesmente inventaram.
Outra coisa maluca foi o padre que se prendeu numa pilha de balões e alçou vôo num domingo de chuva torrencial. Morreu, é claro. Pobre padre, mas que coisa idiota foi fazer. Nem eu, nos momentos de maior loucura da minha vida, tive a genial idéia de ganhar os céus amarrado em balões de aniversário de criança. Doido; de atar. Literalmente.
Bueno, era isso. Uma hora dessas comento sobre os políticos daqui, que são umas feras, os reis da cara de pau.

quinta-feira, abril 17, 2008

A (i)lógica do carro importado

Não custa nada um exercício de humildade. Vamos tentar entender como funciona a mente de um carro importado. Sim, porque deve existir um motivo para que se fale tanta merda sem noção.

Um ponto importante deve ser o histórico familiar. Sendo aqui do RS, as maiores chances são que provenha de um desses três troncos: estancieiros da fronteira, imigrantes italianos, imigrantes alemães. O carro importado sempre recorre ao fator história quando se vê acossado: “meus antepassados chegaram aqui sem nada e trabalharam muito para conquistar o que temos hoje”. De qualquer forma cabe notar que este patriarca da família TINHA TERRA, ou conquistada na ponta da faca, ou recebida do governo. “Mas as condições eram inóspitas”, defende-se o carro importado. Ninguém questiona o heroísmo do fundador do clã, porém o fato é que ele TINHA TERRA.
Passam-se os anos e a família torna-se urbana. Médicos, advogados, empresários, comerciantes, todos prontos para aumentar ou, no mínimo, manter as riquezas já conquistadas pelos ancestrais. Na sua mente está cravada a frase: “tu és o que tu tens”, forjada nas dificuldades de antanho. Ele a desenvolve em faculdades de administração e cursos de especialização no exterior (USA).
Se “tu és o que tu tens”, então por que dividir? A doutrina capitalista cai como uma luva sobre esse conceito que foi formado numa época onde as pessoas realmente precisavam lutar por seus bens. Se o lucro da tua empresa diminuir de 1 milhão para 900 mil, demite a mão de obra “excedente” e faz com que os outros trabalhem mais pelo mesmo preço. No próximo mês as contas estarão em dia.
O carro importado só pensa em trabalho. Ele tem uma mulher plastificada, a madame-carro-importado-sobrenome-importante, que usa para ostentar perante seu amigos. Sexo de verdade ele faz com outras, e ela com outros. Os filhos são bonecos tecnológicos criados em instituições que repetem à exaustão o mantra “tu és o que tu tens”. O carro importado acredita no que lê no jornal, porque é exatamente aquilo que ele pensa. Para ele, a Veja é a voz de Deus e a Folha de São Paulo é um jornal de “esquerda”.
Pois acontece que um dia o carro importado é convidado a dar sua opinião em um programa de TV. Conversa vai, conversa vem, e o assunto acaba no MST. Eis o que diz nosso amigo: “esses marginais deveriam estar todos presos. São bandidos que invadem a propriedade de pessoas honestas, que invadem empresas que estão investindo no progresso de nosso estado. Esses baderneiros não querem terra, eles querem acabar com a ordem do nosso Estado Democrático de Direito. A polícia deveria prender todos. Só com repressão vamos acabar com esses episódios que mancham o nome da nossa nação”.
Ele sai da emissora e volta para seu escritório de luxo e ar-condicionado com a certeza de que deu sua contribuição para o país.

No fim das contas, o carro importado esqueceu que ele só é o que é porque seus antepassados TINHAM TERRA. Ele não consegue pensar que se uma pessoa se sujeita a morar debaixo de lonas pretas na beira de uma estrada é porque ela já passou muita FOME. Ele não consegue pensar num mundo onde todos tenham oportunidade de fazer o que quiserem, pois ELE NÃO PODE FAZER O QUE QUER. Nosso amigo carro importado é um ESCRAVO DO DINHEIRO, e por isso não admite que outras pessoas queiram ser LIVRES.

quarta-feira, abril 16, 2008

Quilombos modernos

“A Firma é forte”, diz a pichação no muro. Essa com certeza é, já que há mais de dois anos são os mesmos caras que controlam o negócio. Claro, alguns deles passam uma temporada na Fase, mas não dá nada, no fim de semana estão todos ali de qualquer jeito.
Quilombos modernos, meu amigo. No caminho de terra a tia (negra) do boteco olha desconfiada para o magrão de calça jeans, tênis, camisa pólo e mochila. Nunca se sabe. Pode ser dos hômi. Agora deram pra vir de táxi arrepiar a gurizada, e sem a gurizada não tem movimento, e sem movimento não tem a mixa de todo dia.
Na primeira quebrada estão eles, escondidos de quem olha da rua, reunidos num bando de cinco, falando merda como qualquer gurizada do mundo.
“E aí cabeça, que vai ser?”.
“Cinqüenta contos de maconha”.
“Ah, isso tem”.
Não estão vendendo pouco porque está no fim. A credibilidade da Firma é não deixar faltar para quem pega bem, quem é cliente. É um negócio como outro qualquer.
Ali estão, cinco rapazes, todos negros (Quilombos modernos, meu amigo), e um “playboy” de faculdade todo cagado fazendo cara de que não está preocupado. Que tal essa: o “playboy” vive com um terço do dinheiro que cada um deles fatura no mês com tráfico, pequenos furtos e bicos pelo Centrão. Por acaso vale a pena pagar pato no colégio, entrar na faculdade e ter que viver de salário mínimo? Aqui é todo mundo negrão e na Vila mais cedo ou mais tarde o cara empacota, então é melhor deixar como está, viver aqui e agora e já era.
“Aí meu, é verdade que lá por 92, 94, as gurias eram tudo limpinhas? Tipo, não tavam bichadas como essas de hoje?”.
“Acho que a maioria era”.
Nisso aparecem duas gurias (negras), uma grávida, outra com uma criança no colo. Olham o “playboy” com uma cara de “mas que otário” e vão seguindo seu caminho. Será que estão bichadas? Com certeza transaram sem camisinha. E as crianças?
A gurizada fala de bonés. O meu Adidas, o meu Nike, o meu não sei o que. De bonés para putas. As casas de massagem do Centro oferecem um bom pedaço de carne a 20 contos.
“Passei lá hoje de tarde, mas só tinha uma gostosinha. Os nego já tavam fazendo fila”. Que vida louca. Putas, drogas, doença, dinheiro.
“Aí meu, vou ligar pro cara, já ta demorando demais”.
“Sem pressa”.
“Não, mas depois tu toma um paredão de graça... aí fica ruim”.
“Pior”.
Nem precisou, lá vem o neguinho trazendo a encomenda.
“Ta meu, te manda”.
“Valeu”.
“Quando quiser tamos aí”.
Lá se vai o “playboy” e o encontro entre brancos e negros se encerra por hoje. Quilombos modernos, meu amigo.

terça-feira, abril 15, 2008

The Doors e a verdade sobre Rock'n'Roll

Só para variar, segunda-feira é um dia de cérebro vazio. Esta, devo admitir, foi um pouco pior, pois fomos incentivados pela frase “peace on earth, sex, drugs and Rock’n “fuckin” Roll!!!”, proferida pelos Doors. Sim, eles vieram e mostraram porque eram considerados a melhor banda da geração hippie.
Passada a emoção do show, faço uma reflexão sobre a frase citada acima. Será que as pessoas que estavam lá entendem o seu verdadeiro significado? Me parece que hoje se eu subo num palco e grito a pleno pulmão “paz na terra, sexo, drogas e Rock’n’Roll”, serei tratado como um ator representando algo que não existe. O que nos anos 60 seria considerada uma atitude extremamente subversiva, tanto que Jim Morrison foi levado várias vezes à delegacia por isso, hoje é totalmente banalizada. Por quê?
Não sei. Mas é certo que o Rock perdeu muito de sua força. Também, depois de anos com músicos palha vindo à mídia para dizer que “não é nada além de música”....
Como assim? Quer dizer que Jim Morrison e os Doors, por exemplo, não transformaram uma vírgula sequer da sua vida? Quer dizer que eles foram a ponta de lança para acabar com toda a repressão de uma sociedade hipócrita e agora que temos, em tese, toda a liberdade não somos capazes de reconhecer sua revolução e vamos para a mídia dizer que Rock’n’Roll é “só música”?
Tudo bem, agora fiquei nervoso. Mas é que eu sei que nem 10% das pessoas que estavam no show compreenderam o que estava sendo falado. A vida rocker exige uma série de responsabilidades. Precisamos conhecer nossa História para que o movimento não vire “só música”. Encerro aqui com um dos últimos ensinamentos do nosso mestre Raulzito:

“É preciso cultura para cuspir na estrutura”.

sexta-feira, abril 11, 2008

Comunicado urgente para o Exército Subversivo

Pessoal, estamos perdendo a guerra. Ontem fomos atingidos seriamente pelo inimigo na nossa Fronteira Sul. Nossos bravos soldados, liderados pelo glorioso general Sérgio de Oliveira Campos, bem que tentaram resistir, mas não teve jeito. O inimigo recrutou pelegos como guardas, fiscais de trânsito, do meio ambiente, oficiais de Justiça, procuradores da prefeitura e operários da Secretaria de Obras, que foram transportados para o local em oito caminhões. Nossos praças estavam em número reduzido, aproximadamente 40, e em quantidade e qualidade inferior de armamento. Enquanto o inimigo contava com retroescavadeiras, enxadas, revólveres 38 e espingardas, os poucos heróis procuravam defender suas posições com paz, amor, mesas, copos, garrafas de cerveja e meia dúzia de baseados. Agüentamos o máximo, até que, vislumbrando a derrota iminente e um provável banho de sangue, decidimos por recuar e entregar o posto ao inimigo.

Agora, falando sério, demoliram o Timbuka, tradicional boteco da Zona Sul de Porto Alegre. A principal reclamação: era um ponto de maconheiros. A alta sociedade não suporta ver pessoas felizes, jovens que estão pouco se lixando para o dinheiro, que só querem sentir a brisa do fim de tarde com a cabeça nas nuvens. Não, eles preferem que seus filhos se tranquem em um banheiro de luxo da Padre Chagas (Calçada da Fama) para uma farinhada individual.
Por isso nosso lema é A ALEGRIA É A DERROCADA DO SISTEMA. Colabore com o movimento. Leia e siga nossos mandamentos. Só com uma grande rede de terroristas do amor poderemos derrotar nossos inimigos.

quarta-feira, abril 09, 2008

O bom e velho Engenheiros

Hoje acordei e, como sempre, coloquei um disco antes de entrar no chuveiro. Desta vez foi Ouça o que eu digo: não ouça ninguém, dos Engenheiros do Hawaii. Uma obra prima. Algumas músicas são fantásticas, como Cidade em chamas, Sob o tapete, ?Desde quando?. Acabo o banho e viro o lado (sim, estamos falando de LPs). Depois de A verdade a ver navios, uma música que nunca tinha realmente prestado atenção antes: Tribos e tribunais. Com certeza o Humberto estava no seu auge como compositor. Reproduzo abaixo a poesia. Lembrem-se que o disco é de 1988. Existe, por acaso, algo assim nos dias de hoje?

Todo dia a gente inventa uma alegria
A gente esquenta a água fria
E ignora a bola fora

Toda hora a gente dá um desconto
A gente faz de conta
Mas chega a um ponto em que ninguém mais quer saber

Crimes passionais
Profissionais liberais demais
Segredos de estado
Centroavante recuado

Isso me sugere muita sujeira
Isso não me cheira nada bem
Tem muita gente se queimando na fogueira
E muito pouca gente se dando muito bem

Agente secreto
Agente imobiliário
Gente como a gente
Presidente e operário

Empresas estatais
Estátuas de generais
Heróis de guerra
Guerra pela paz

Indús, industriais
Tribos e tribunais
Pessoas que nunca aparecem
Ou aparecem demais ...refrão

Críticos da arte
Arte pela arte
Pink Floyd sem Roger Waters
Torna sem função

Fascista de direita
Fascista de esquerda
Empresas sem fins lucrativos
Empresas que lucram demais
Todo dia a gente inventa e fantasia
A gente tenta todo dia
Feitos cegos
Egos em agonia

Isso me sugere muita sujeira
Isso não me cheira nada bem

terça-feira, abril 08, 2008

1984 é agora

Ontem não publiquei esta tão esperada coluna porque só conseguia pensar em futebol. E como todos sabem minha preferência clubística já podem imaginar o tamanho da flauta que vinha por aí. Resolvi calar.
Mas eis que durante a tarde mantive uma conversa literária com um amigo, basicamente sobre o livro 1984 de George Orwell. Por acaso você, amigo leitor, lembra-se de quando o mundo era dividido entre comunistas e capitalistas? Pois bem, os últimos ganharam a queda de braço. O socialismo morreu. Morreu?
Não sei se vocês percebem, mas tenho a sensação de que este sistema social que vivemos é definitivo, que não existem alternativas para mudá-lo; talvez, no máximo, ajustá-lo para que seja mais eficiente. Penso: quem colocou essa idéia, ou essa percepção, na minha cabeça? Seria por acaso aquela máquina de novilíngua instalada no meio da minha sala? Não, não pode ser. Quase não ligo o aparelho, só para assistir jogos de futebol. Terá sido o papel impresso com novilíngua que recebo em casa? Também não pode ser. Considero-me inteligente o suficiente para não acreditar no que dizem.
E agora, como que eu, um cidadão inteligente o suficiente para não acreditar na novilíngua, que não assiste TV ou ouve rádio, com uma boa média de leitura e em contato com pessoas igualmente inteligentes das mais diversas áreas, tenho essa percepção?
É, meus amigos, 1984 é agora.

sexta-feira, abril 04, 2008

O primeiro mandamento

Agora tu imagina a cara do magrão:

- Polícia!!! Abre a porta!!!

“PUTA QUE O PARIU!!!”

Cenário: no quarto 3x4 da casa de estudantes tem uma cama, um armário que divide a parede com uma mesa de estudos e uma janela. Sobre a mesa três baseados enrolados. No pequeno espaço que pega sol das 11h às 15h, o orgulho da casa: um pé de Cannabis de quase dois metros de altura. A planta fêmea já está quase no ponto. A galera da Filosofia vem todos os dias fumar um e apreciar essa maravilha do mundo natural, imaginando o dia em que será degustada a pura erva.

Eis que um belo dia a caretona, estudante de Direito (ou seria de Administração, Medicina, Psicologia, Jornalismo...), resolve que não agüenta mais aquele maravilhoso cheiro adocicado, os risos de pura alegria, as festas ao som de Rock’n’Roll. É muita tentação e ela não pode ceder aos encantos do Demônio. O que ela faz? Chama a polícia.

No dia seguinte está no jornal: “Polícia apreende pé de maconha em Santa Maria. Três alunos da UFSM foram presos suspeitos de tráfico de drogas dentro do Campus.”

É por isso que o mandamento número 1 do nosso movimento é:

PLANTE CANNABIS NA RUA!!!

quinta-feira, abril 03, 2008

Atitudes

Sobre atitudes que podemos tomar, reproduzo a coluna de 12 de junho de 2007, acrescida de novos itens.

Para quem não sabe, este blog faz parte de uma rede semi-clandestina de apoio a ações subversivas, com sede em diversos países do mundo. Nosso lema é “a alegria é a derrocada do sistema”. A seguir, algumas ações que qualquer pessoa pode fazer para ajudar nessa luta:

1- plante cannabis em parques, praças e canteiros da sua cidade;
2- apareça mascarado em manifestações de partidos de direita;
3- apareça com a mesma máscara em manifestações dos partidos de esquerda;
4- nunca compre jornais, todos mentem;
5- dê um abraço num mendigo;
6- ao passar por uma prostituta de rua, faça um elogio;
7- não fale com repórteres;
8- ao ver um carro oficial, dê uma cusparada no pára brisa;
9- faça o mesmo ao ver um carro de luxo;
10- não fale com a polícia, eles são a face armada do inimigo;
11- escreva frases de amor nos muros da cidade;
12- invente uma nova profissão;
13- ouça Rock’n’Roll no volume máximo;
14- vote nulo (e arranje uma boa justificativa para tal);
15- conheça as pessoas de sua cidade. Uma volta pelo Centro é sempre um bom programa;
16- visite os sebos, as lojas de vinil e as “firmas”;
18- seja expulso de um shopping por “andar em grupos de mais de 5 pessoas”;
19- ouça a Radio Web Putzgrila;
20- seja feliz.

quarta-feira, abril 02, 2008

O povo das ruas

Você fica constrangido com os pedintes na rua? Sim, tudo bem, não precisa ficar com vergonha. Ninguém gosta de ver pessoas dormindo na calçada, esfarrapadas, obrigadas a esmolar para manter uma curta sub-vida. Mas se a pergunta é “por que eles estão lá?”, a resposta é muito simples. Basta pensar um pouco. Vamos aos fatos:

1. A madame chega no seu Mercedes de R$ 150 mil e estaciona na garagem do shopping para fazer umas comprinhas. Precisa de um tênis para a academia. Compra um Nike baratinho de R$ 500, afinal não se pode abrir mão do conforto. Precisa também de uma calça de brim para as situações mais descontraídas. Na Guess tem uma promoção incrível: R$ 800 uma calça moderníssima que já vem rasgada!!! Ufa! Depois de tanta emoção ela precisa reabastecer a energia. Compra um prato de massa industrializada com molho pronto e salada transgênica por R$ 20. Olha que coincidência! A mãe do Paulinho, namorado da sua filha. Beijos, beijos e vão tomar um cafezinho de R$ 5. Despedem-se e nossa heroína, já cansada vai ao salão de beleza. Massagem, escova, unhas de pé e mão, tudo isso pela módica quantia de R$ 350. Que dia cheio.... Finalmente chega de volta à sua Mercedes, depois de pagar R$ 10 para o estacionamento. Ao parar na primeira esquina dá graças a Deus pelo ar condicionado, pois assim não precisa abrir a janela e enfrentar as crianças com a mão estendida.

2. Sete horas da manhã começam os primeiros movimentos de carro na rua. As cinco crianças dormem amontoadas em um colchão sob uma marquise. São acordadas com gritos e chutes pelo zelador, que imediatamente após sua retirada lava a calçada com um jato de mangueira. Os jovens sonolentos vão guardar suas coisas no terreno baldio duas esquinas adiante. Caminham para o parque e tomam um banho de chafariz. Só de cuecas e calcinhas deixam a roupa secar nas pedras que a essa altura já estão quentes pelo sol escaldante. Isso até que os guardas municipais apareçam e eles tenham que fugir correndo. Já passou do meio dia e tudo o que comeram foram umas bananas que conseguiram num mercadinho. Colocam-se numa esquina, onde os meninos fazem malabarismo com uma calota enquanto as meninas passam para recolher as moedas. Durante cinco horas nessa função conseguem R$ 10. Felizes da vida com o dia lucrativo, compram uma garrafinha de loló, dois pacotes de bolacha, um salgadinho e uma Coca-cola. Ainda sobra para chicletes. Voltam para sua marquise e se deliciam com seu banquete.
.
P.s.: "69% do entrevistados se sentem contrangidos quando abordados por pedintes". Alguém, por acaso, vai fazer uma pesquisa para saber quantos mendigos se sentem contrangidos em ter que pedir?

terça-feira, abril 01, 2008

Três colunas abaixo...

....eu disse que eles tinham seus homens na imprensa. Para mostrar como não estou ficando louco, os queridos leitores devem ter visto a capa da Zero Hora de domingo: uma ode ao plantio de eucalipto no Pampa. Nenhuma linha, um suspiro sequer, sobre as instituições, movimentos, estudos e opiniões de especialistas que são contrários a esse cultivo. Jornalismo tem que, no mínimo, ouvir os dois lados; ou já passamos dessa fase?
Ainda vai chegar o dia em que as pessoas que defenderam essa depredação do nosso patrimônio terão que se explicar perante o povo gaúcho. Só espero que nossas consciências não estejam (mais) entorpecidas.