quinta-feira, setembro 07, 2006

Domingo Cinza em Porto Alegre

Domingo cinza em Porto Alegre. Dia de casacos e mãos nos bolsos. Um dia de silêncio. Como são apenas 4h da tarde até mesmo a rodoviária parece quieta. Os ônibus do interior chegam carregados com a noite. Uma multidão de carros laranja aguarda trabalhadores, universitários e alguns poucos turistas. Nos bares os garçons limpam sujeiras imaginárias nas mesas e sentam-se para assistir um pouco de futebol. Na saída uma banca de frutas. Neste momento os cartazes “não mexa” e “não aperte” não falam a ninguém. Nas paradas de ônibus e na passarela nada de gritos e bugigangas. Isqueiros, lanternas, colares, máquinas de cortar cabelo, relógios e vales transporte estão em algum lugar da periferia, descansando, porque amanhã é segunda e todos voltam para as calçadas.
Grandes hotéis disputam lugar com grandes estacionamentos. De todas as alternativas para entrar na cidade a Rua Garibaldi parece a menos atraente. Na primeira quadra dois grandes muros e um hotel com cara de abandonado. Ao atravessar a Rua Voluntários da Pátria, no entanto, um novo mundo.
Na calçada da direita, pequenos cortiços de três andares disfarçam-se de moradia. As pinturas rosa e verde estão pálidas e descascadas. Roupas e cobertores são pendurados nas sacadas. Bandeiras do Brasil, esquecidas desde a Copa do Mundo, também estão ali. Algumas das escadas que levam aos apartamentos têm na sua entrada placas quase ilegíveis: “HOTEL”. Os térreos dão lugar a bares escuros, sujos e enfumaçados, invariavelmente adornados por uma mesa de sinuca, cadeiras de ferro, e rostos sombrios que controlam o movimento da calçada. Toda a atenção está voltada às senhoritas que circulam dez passos a sul, dez a norte, em busca de alguém disposto a alugar um pouco de seu tempo. São as prostitutas de rua, incansáveis em sua jornada, até mesmo num domingo como esse. Seus rostos não demonstram emoção nenhuma. Muita maquiagem para esconder as marcas do vento frio, da idade, da humilhação. Sob as mini-saias as pernas só não estão totalmente expostas por causa das botas de cano longo e das meias-calça. Algumas usam jaqueta, outras blusão de lã. São em torno de dez neste momento, e mesmo assim capazes de satisfazer todos os gostos. Altas, baixas, gordas, magras, loiras, morenas, ruivas. Pela quantia de R$ 20 o cliente pode desfrutar os prazeres do “sexo anal e vaginal, com direito a duas gozadas”. Apesar de tudo elas parecem belas. Talvez porque façam aflorar sentimentos libidinosos; ou por pura pena.
Na esquerda uma fábrica abandonada toma metade da quadra. Logo depois uma pequena porta dá entrada à que provavelmente seja a menor bomboniere da cidade. Num espaço não maior que dois metros quadrados, um senhor gordo e barbudo vende chicletes, chocolates, balas, mandolates, cocadas, cigarros, isqueiros, refrigerantes, enfim, toda essa espécie de artigo. Em dias de semana uma porta lateral é aberta, e o local se transforma em um micro-mercado. Se a fome apertar, o pedestre pode ainda pedir um pastel e um cafezinho por R$ 1. Os próximos trinta metros são um espelho do lado oposto, com seus cortiços, bares e garotas. Quase na esquina um grande galpão desativado serve de depósito para papeleiros. Em dias normais é intenso o fluxo de carrinhos trazendo papéis, latas, garrafas, qualquer coisa que possa ser vendida. Mas hoje é domingo e apenas o zelador está guardando a porta com seu cigarro aceso, olhando as meninas do outro lado. Dentro do galpão uma família descarrega seu primeiro e único carrinho do dia. Uma criança de, no máximo, três anos de idade imita um trânsito com latas de cerveja e constrói uma casa de papelão.
Em meio a tudo isso, uma igreja. Afinal, o “Sagrado Coração de Jesus” precisa ficar perto dos pecadores mais honestos.

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