quinta-feira, setembro 14, 2006

Vergonha

É fato: eu sinto vergonha. Menos mal, pois muitos sentem ódio, nojo, desprezo......


Era meia noite e eu, cansado dessas velhas paredes, resolvi dar uma volta. Só tem um cigarro que me dá mais satisfação do que o de após as refeições: aquele que compartilho com o vento frio da madrugada. E realmente naquela noite o Minuano não se fazia de rogado. Cortava roupas e a pele, feria o rosto e maltratava as articulações.
Boa solidão esta da madrugada. Nenhum carro, nenhuma gente. Apenas alguns poucos pensamentos que vazam das luzes ainda acesas nos apartamentos. Nada de cachorros, nada pombas, uns poucos ratos e sempre as mesmas baratas. São as ruas pequenas que fazem as grandes cidades, que escondem essa magia invisível, prestes a desabar. Os postes deixam tudo meio amarelo e as sombras guardam bem suas portas. Uma vida por trás de cada detalhe. Novas cidades só serão grandes quando tiverem história, casas antigas e ruas aconchegantes.
Mas logo adiante encontrei a avenida. Branca, insípida, morta, porque respira tudo o que pode durante o dia. Grades e cortinas de ferro protegem seus pequenos tesouros. Mas mesmo aqui, nada de cachorros, nada de pombas, um pouco mais de ratos e as mesmas baratas. Sim, também tem aquilo que a muito custo ainda é gente. Velhos bastante fortes para o álcool dormem sob as marquises. Amontoam-se no mesmo colchão de espuma, desmaiados e aquecidos pela iminência da morte. Estão ali, jogados, e despertam fácil um sentimento de repulsa e compaixão. Em meio às rugas seus olhos clamam por alguma coisa qualquer. São o povo do “não”: moedinha, “não”: uma comida, “não”: um sorriso que seja. Povo da agonia lenta e de mão única para o fim. Enquanto isso bebem e dormem, e acordam para beber e dormir.
E são também crianças, que colocam medo nos mais velhos e teorias nos palanques. Perderam tudo o que diz respeito à infância. Falam como adultos, brincam como adultos. Crianças que vagam como zumbis, com seus panos na boca e suas garrafas químicas nos bolsos. Não têm pais, são frutos da sociedade. Não têm escola nem casa, apenas um lugar reservado nos presídios e necrotérios.
Que vergonha senti do meu cigarro, do meu prazer em sair para a rua. Que vergonha senti da minha comida, das minhas roupas. Que vergonha senti da minha carteira, da minha civilização, do meu emprego, das minhas preocupações e alegrias idiotas. Que vergonha...

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